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Alice Vieira

Alice Vieira
Projecto #na_tua_escola
Lista de escritores
 
 

Alice Vieira em discurso directo

 
 

#na_tua_escola - Quando terminou o curso foi professora. Depois trocou o ensino pelo jornalismo. Contudo, mesmo aí, a sua actividade continuou ligada aos jovens. A sua carreira enquanto escritora para a infância e juventude já é longa... Que relação é esta, afinal, que mantém com os jovens?

Alice Vieira - Eu nunca fui professora: pelo menos naquilo que eu acho que deve ser um professor... Fui, pura e simplesmente, substituir uma professora que estava em licença de parto (e em 1966 as licenças de parto não deviam ser muito longas) num colégio particular (o Colégio Paula Vicente, no Areeiro). Com as greves académicas de 60, a minha ficha na polícia fez com que não me dessem o diploma para poder ensinar nas escolas públicas... Mas a minha vontade também não era muita. O que eu queria mesmo era ser jornalista, uma paixão que vinha desde sempre. E também não queria ser escritora, nem nunca tinha pensado em tal coisa. Acho que quem me "atirou" para os braços dos jovens foi o prof. Calvet de Magalhães, de quem eu era muito amiga. Ele tinha, nessa altura (mais ou menos 1961), umas iniciativas aos sábados de manhã muito inovadoras para a época: abria as portas da Francisco Arruda a toda a miudagem dos bairros da lata que então havia por ali, o ginásio ficava cheio, a transbordar, e então ele convidava pessoas (escritores, pintores, gente com diversos ofícios) a irem falar com os miúdos. Eu era muito nova, mas ele achava que eu lia histórias muito bem, e muitas vezes me convidava para esses sábados. Comecei por ler histórias de outros, acabei a ler histórias que eu própria escrevia.
Entretanto eu trabalhava no "Diário de Lisboa - Juvenil" e isso foi a minha grande escola. Fazíamos reuniões mensais com colaboradores (com quem queria aparecer!), e isso ainda me aproximou mais da gente jovem (embora eu fosse pouco mais velha do que eles...)

 

# Habitualmente é considerada uma escritora infanto-juvenil. Pensa que esta é uma definição pertinente (ou impertinente)?

A.V. - Só é impertinente na medida em que, ainda hoje, se considera que ser escritora infanto-juvenil não dá trabalho nenhum. E os meus livros dão-me imenso trabalho, e sofro imenso enquanto os escrevo, e acho sempre que se pode fazer melhor, e rasgo e recomeço e rasgo e recomeço. Porque não faço distinções de literatura para grandes ou para pequenos. Literatura é literatura, seja qual for o público a que se dirige. Odeio diminutivos, e a pretensa literatura-infantil é um campo fértil... "Então lá continua a escrever as suas historiazinhas...:" é das piores coisas que me podem dizer - e, infelizmente, dizem...

 

# É muito diferente escrever para adultos ou escrever para jovens?

A.V. - Penso que não. Até porque um dos meus livros - "Se Perguntarem Por Mim, Digam Que Voei" - era para ter sido publicado na edição "normal" de literatura para adultos da "Caminho". O editor achava que era um livro para adultos e não para jovens. Eu é que insisti para que ficasse na minha colecção. E acho que fiz bem: é daqueles que têm originado mais cartas, mais "paixões", mais discussão.

 

# A Alice Vieira tem já uma vasta produção literária. Nos seus livros há temas que são recorrentes, muito embora não se inscrevam em fórmulas pré-determinadas. Como nascem os seus livros?

A.V. - Ando a pensar neles durante muito tempo. Mas nada de concreto. Ideias vagas, nomes de personagens, frases soltas. Nunca escrevo subordinada a um tema prévio. Depois do livro feito, acabo por reconhecer que há um tema que lhe é subjacente - mas não foi, nunca é, premeditado. Trabalho, como qualquer jornalista, a partir da realidade que nos entra pelos olhos dentro.

 

# Como é escrever para a infância e juventude quando já não se é propriamente jovem, num mundo em que as referências, os heróis e até o vocabulário mudam de forma tão acelerada?

A.V. - Ouvir os jovens é uma maneira de nunca nos desactualizarmos... Lendo as suas cartas, conversando com eles, andar pelas ruas com os ouvidos bem abertos - e não fazer cedências. Sobretudo isso. Nota-se logo quando os escritores estão deliberadamente a piscar o olho aos mais novos. E eles detestam isso. Por isso não gosto nada daquele lugar-comum que fala "da criança que há em nós" quando escrevemos. Eu sou um adulto. Não sou uma criança. E é o adulto que eu sou quem está a escrever. Posso entendê-los, posso estar próxima deles, posso não me ter esquecido de quando tinhas a idade deles - mas não sou eles.
Quanto às mudanças - os livros, como tudo, são o testemunho de um tempo. As referências a determinada linguagem, a determinados acontecimentos, a determinadas músicas reflectem evidentemente o tempo em que os livros foram escritos: Mas isso não tem impedido os jovens de os lerem - e ficam sempre muito surpreendidos quando eu lhes digo "esse livro que leste já foi escrito há 22 anos!" Porque, no fundo, os sentimentos, as angústias, os medos, as alegrias, a esperança não muda assim tanto...

 

# O que pensa da evolução do panorama da literatura infanto-juvenil desde o tempo em que começou a escrever?

A.V. - Há muito mais autores. Mas, muito sinceramente, não sei se terá melhorado muito. Penso que a maior parte escreve sem grande rasgo, com pouca criatividade, e muito subordinada a modas: "agora está a dar livros de aventuras, então vou escrever um livro de aventuras"; "agora está a dar escrever livros de magia, então vou escrever um livro cheio de bruxas e de harries-potters". Muito poucos livros para jovens, hoje em dia, me conseguem entusiasmar e surpreender. Podem estar mais ou menos bem escritos, mas os esquemas são sempre os mesmos, e começam a cansar.

 

# É uma escritora bastante traduzida. Conte-nos como tudo começou.

A.V. - As traduções têm sempre a ver com a minha editora e não comigo. Não sou dos que têm amigos estrangeiros que lhes conseguem traduções... A minha editora e a minha agente tratam disso. Creio que a primeira tradução foi na Checoslováquia... De " Rosa, Minha Irmã Rosa". Que de "Rosa" passou para "Margarida", para fazer coincidir o nome de flor com o nome de rapariga. Pelos vistos, na Checoslováquia ninguém se chama Rosa... Mas é evidente que foram as edições em língua alemã e, mais tarde, em língua francesa, que abriram caminho a edições em mais países. Resta-me conseguir entrar no difícil mundo da língua inglesa...

 

# Que relação mantém com os seus leitores no estrangeiro? Ou a sua relação é exclusivamente com os editores?

A.V. - No estrangeiro, as minhas relações são preferencialmente com os editores... As relações com os leitores limitam-se aos encontros que tenho com eles em escolas e bibliotecas - o que já não é mau.

 

# O que pensa do panorama da literatura infanto-juvenil em Portugal quando comparado com o que conhece de outros países?

A.V. - Penso sobretudo que é uma pena a literatura infanto-juvenil de outros países não chegar até cá. Acho que fazia muito bem aos nossos autores lerem o que se anda a escrever por esse mundo fora. Para não pensarem que a J.K. Rowling nasceu de geração espontânea (o que ela copia de outros autores não tem explicação!), e para não pensarem que ela é a única a escrever para jovens... Gostava que as pessoas conhecessem a obra de Maria Grippe, de Christine Nöstlinger, da Lygia Bojunga Nunes (que até escreve em português!), de Virginia Hamilton, da Astrid Lindgreen (quantos não conhecem a "Pippi das Meias Altas" só da televisão? E ignoram a obra imensa dela, para todas as idades, incluindo "Rónia, Filha de Ladrão" e os livros da série do "Emílio" que tiveram edições portuguesas, a primeira na Afrontamento, os outros na Verbo, que não vingaram e estão certamente fora de mercado...) E muitos, muitos outros que era urgente conhecer. Sem esse conhecimento acho que é difícil sairmos desta mediania em que nos encontramos.

 

# Que livros lia quando tinha a idade dos seus leitores?

A.V. - Lia tudo o que me vinha parar à mão. Sem crianças para brincar, sem ir à escola, sem televisão - os livros foram os meus amigos, os meus mestres, a minha âncora de salvação. Mas recordo autores que me marcaram muito, entre todos eles o Erico Veríssimo (de quem tenho uma fotografia na minha mesa de trabalho) e dentre todos os livros dele, "As aventuras de Tibicuera" e "Clarissa". O primeiro conta a História do Brasil através das palavras do índio Tibicuera. Eu era muito pequenina quando o li - 6,7 anos, não mais - e não percebi nada da história. Mas achava que nunca tinha lido nada tão bonito, e passava horas diante do espelho do meu quarto a repetir a frase com que o livro principiava: "Nasci na taba de um tribu tupinambã". Penso que, da frase inteira, sabia apenas o significado de "nasci"... Mas não havia, para os meus ouvidos, música mais bonita do que a que vinha daquelas palavras estranhas. Ainda hoje eu sou muito cativada pelo som das palavras e, mesmo que os meus livros não sejam para ser lidos em voz alta, quando acabo de escrever um parágrafo, ou uma página, leio tudo em voz alta, para ver se soa bem ao ouvido. Daí o meu trabalho em retirar os "que" a mais, a evitar os "mas elas"... (mazelas?), os "como elas"... (com moelas?) e coisas assim que às vezes nos escapam.
Mas também lia outros autores: a Madame de Ségur (felizmente agora recuperada! - e que foi dos primeiros autores a lutar valentemente pelo Direito de Autor, até porque ela vivia disso), a Luísa Alcott (sobretudo na "adaptação" dos seus livros feita pela Maria Paula de Azevedo, hoje esquecida), a Frances Burnett (o que eu chorei com a "A Princezinha", que me ensinou que, mesmo na maior das desgraças, nunca se deve perder a compostura, a dignidade e a esperança...), e fui (como ainda sou) fanática do Stevenson, lido e relido durante as imensas e infindáveis doenças que então as crianças tinham. De resto eu tenho uma teoria muito especial sobre a falta de leitura actual... Eu acho que o que verdadeiramente matou a leitura não foi a televisão, não foi o cinema, não foram os computadores, não foram os jogos. O que verdadeiramente matou a leitura foram as vacinas. Dantes, todos nós tínhamos, alegremente, sarampo, papeira, varicela, tosse convulsa, etc, etc, já para não falar das gripes que duravam imenso tempo e, como todas as outras doenças, tinham de ser curadas na cama. Que fazer durante todo esse tempo? Lembro-me que foi durante uma gripe que me apaixonei pela "Ilha do Tesouro". Noutra, pelo "Rapto". Acho que são livros de que só se gosta muito quando se está com febre, e se misturam os nossos pesadelos com a história. Foram experiências fantásticas.
Hoje, com as vacinas, as crianças não têm essas doenças, e os médicos não querem as crianças na cama quando estão com gripe...

 

# Se tivesse de oferecer um livro da literatura portuguesa ou universal a um seu leitor... que livro ofereceria?

A.V. - Acho que lhe oferecia uma pequena biblioteca, composta de : "Clarissa" de Erico Veríssimo; "Rónia, Filha de Ladrão" de Astrid Lindgren; "Na Corda Bamba", de Lygia Bojunga Nunes; "Iratan e Iracema, Os Meninos Mais Malcriados do Mundo" de Olavo D'Eça Leal; "O Romance da Raposa" de Aquilino Ribeiro; e tentava que alguém traduzisse para português "Agnes Cecília" de Maria Grippe, e "Ilse Janda, 14" de Christine Nöstlinger e juntava-os ao lote. Se se tratasse não de jovens, mas de crianças, punha-lhe nas mãos todos os da Judith Kerr e a série do sapo de Max Velthuijs (este último, felizmente traduzido e já bem conhecido entre nós!)  

 
 

 

 
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