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Lembro-me de andar a passear de manhã pelo
Parque Eduardo VII com uma senhora muito alta e magra que falava uma
língua que eu não entendia. Quando queria alguma coisa, puxava-lhe
pela manga. Lá em casa chamavam-lhe Miss Simões. Nunca percebi donde
é que lhe vinha o apelido português. Aquelas idas ao Parque eram
supostas servirem para me fazer aprender inglês muito cedo. Todas as
filhas das amigas das minhas tias (que me criaram) também tinham uma
Miss.
Lembro-me depois da Mademoiselle Serrière, essa já sem direito a
passeios bucólicos, sentada muito direita à minha frente, para me
pôr a falar francês, também muito cedo. Todas as filhas das minhas
tias também tinham uma Mademoiselle.
E lembro-me sobretudo do cabelo branco da D. Judite, a chegar logo a
seguir ao almoço e a partir depois do lanche. Sobre a mesa de
trabalho amontoavam-se os livros, os cadernos, os lápis e as
borrachas. Também tinha uma caneta de tinta permanente, tinteiros e
muitos mata-borrões, todos eles de propaganda a remédios e
laboratórios.
Lembro-me do livro da terceira e da quarta. Não me lembro do livro da
primeira. Acho que nunca o tive: quando a D. Judite foi contratada, eu
já sabia ler e escrever, tudo aprendido sozinho, garentem as tias que
através das letras grandes dos muitos jornais que entravam lá em
casa.
Lembro-me dos textos desses livros: do Jorge, exemplo de boa
educação que todos nós devíamos seguir, que "só falava
quando lhe dirigiam a palavra", e do Gonçalo "a caminho da
escola, além/ vamos depressa apanhá-lo/ vamos com ele também".
Lembro-me de todos os pais carregarem enxada ao ombro e todas as mães
usarem carrapito e avental, enquanto mexiam a sopa no caldeirão de
ferro pendurado sobre o lume.
Lembro-me de saber de cor que "todo o trabalho dá saúde e
alegria, mormente o que se faz ao ar livre", embora tenha levado
anos a perceber o que seria "mormente".
Lembro-me de saber de cor todos os nomes dos reis e cognomes, todos os
rios, afluentes e sub-afluentes, todas as serras, todas as linhas de
caminho de ferro, incluindo ramais, sobretudo o de Trofa a Fafe que,
durante anos, julguei tratar-se de uma única terra, Trofafafe...
Lembro-me da D. Aurora, que chegava a meio das tardes de quarta e
sexta, para me obrigar a fazer escalas no piano, e exercícios de
Czerny e tocar para a família o "Pequeno Camponês Alegre"
de Schumann.
Lembro-me de ter entrado numa escola apenas duas vezes para fazer o
exame da terceira, e para fazer o exame da quarta. Lembro-me que
fiquei distinta e olhei cheia de pena para a única que tinha ficado -
que vergonha! - apenas aprovada. À distância de meio século,
lembro-me que era negra e se chamava Lígia.
Lembro-me de encontrar os meus únicos amigos nas páginas dos livros
que devorava. Sem eles não sei bem se teria sobrevivido. Livros maus,
livros de cordel, livros roubados às tias - mas que me fizeram tão
bem.
Lembro-me de ter sido uma criança calada, solitária, cheia de
pesadelos e profundamente infeliz. Mas falava muito bem inglês e
francês, tocava piano e sabia imensas coisas de cor. Podia-se mostrar
às visitas.
Lembro-me de ter um único sonho: crescer muito depressa para poder
fugir de casa.
Lembro-me de ter jurado a mim própria que nunca iria um dia educar os
meus filhos da mesma maneira - juramento que penso ter cumprido
razoavelmente.
In "Memórias da Escola Primária
Portuguesa", Livros Horizonte,
coordenação de Sara Marques Pereira, 2002
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