Discurso Directo
Ana Maria Magalhães -
Ser escritora era um dos meus sonhos de criança.
Isabel Alçada - Eu
sempre que lia um livro e gostava dizia para mim própria que havia de
ser escritora.
IA - Estudei no Liceu
Francês, onde me correu sempre tudo muito bem. Tinha amigos, gostava
dos professores e obtinha boas notas. A disciplina preferida variava.
AMM - Só soube que
queria ser professora por acaso. Passei um ano em Moçambique, comecei
a dar aulas no liceu e adorei! Ainda por cima tinha alunos muito
variados: africanos, indianos, chineses. E dava-me bem com todos.
IA - Não foi fácil
escolher que curso queria tirar porque gostava de todas as matérias.
Quando acabei o liceu, inscrevi-me na Faculdade de Letras de Lisboa e
fiz o primeiro ano de um curso de Línguas. Como não gostei muito,
mudei para Filosofia.
IA - Em 1976 conheci
a Ana Magalhães à porta da Escola Fernando Pessoa, em Lisboa.
Começámos logo a preparar aulas em conjunto para os nossos alunos, e
dávamo-nos muito bem, talvez por termos tido uma infância e uma
juventude semelhantes.
AMM - Em 1976 conheci
a Isabel Alçada à porta da Escola Fernando Pessoa, em Lisboa. Ficámos
amigas. Em 1982, depois de muito escrevermos para os alunos, tentámos
o nosso primeiro livro: Uma Aventura na Cidade. Não foi fácil arranjar
editora. Levámos com a porta na cara três vezes. Só a Editorial
Caminho quis apostar em nós.
AMM - As crianças
estão a ler muito mais, porque os professores estão a fazer um grande
esforço nesse sentido. Antigamente, os professores do primeiro ciclo
limitavam-se a dar a matéria. Agora procuram promover o gosto pela
leitura e isso está a dar os seus frutos.
AMM - O panorama em
Portugal está a melhorar muito, porque os professores estão a
trabalhar nesse sentido. No meu tempo era ao contrário, dizia-se que
só se lia em férias, o tempo de aulas era para estudar. Coisa que eu
não praticava...
IA - Por outro lado,
a atitude perante a leitura mudou. Os adultos incentivam a leitura dos
filhos, gostam que as crianças tenham livros, compram... Ainda que
eles não sejam leitores, têm uma atitude positiva em relação aos mais
novos. A minha expectativa é que esta geração que agora está no
primeiro e no segundo ciclo se transformará em adultos leitores, num
número superior ao actual.
«Queríamos
incrementar o gosto pela leitura nas crianças», diz Isabel Alçada, que
desde 1985 lecciona na Escola Superior de Educação de Lisboa.
«Verificámos que muitos miúdos não gostavam de ler e achámos que, se
encontrassem livros adequados, passariam a apreciar a leitura».
AMM - Antes do 25 de
Abril, ler era quase subversivo. Se uma pessoa de uma profissão manual
fosse um grande leitor, provocava desconfiança. Um carpinteiro a ler
Eça de Queirós, por exemplo. Hoje as pessoas entendem que, seja qual
for a profissão, todos têm a obrigação de ler e ler livros de grande
qualidade.
AMM - Fala-se muito
na delinquência e na toxicodependência, mas em Portugal nunca houve
tantas escolas de música ou grupos de teatro como há hoje. Nunca se
visitou tantos museus, nunca houve tanta gente a aprender dança ou a
fazer desporto...
Como se escreve um
livro em parceria? Isabel Alçada explica o segredo de tão difícil
missão: «Primeiro as ideias surgem de uma forma anárquica. Passamo-las
para o papel e começamos a ordená-las. Vamos fazendo visitas aos
locais. Para Macau fomos duas semanas, para Palmela fomos várias
tardes. Mais tarde fazemos um planeamento muito detalhado da
história.» Ana Maria Magalhães exemplifica: «Sentamo-nos e eu, por
exemplo, digo: "As gémeas saíram do banho com o cabelo encharcado". E
a Isabel: "Não, gosto mais de ‘Saíram encharcadas do banho’."»
Excertos de
declarações de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, extraídos dos
Sítios referidos nas "ligações".
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