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Eram sete e estavam como mortos.
Eram sete e estavam como mortos.
Ao princípio, a Dulce andou para a frente e para trás nas traseiras do pavilhão três, sem conseguir identificar o local de onde vinham aqueles sons
que ora pareciam de gatos a miar ora de bebés com dores ou com fome. Até
que, ao passar por um balde de plástico velho pela quarta ou quinta vez, se
lembrou de olhar para dentro dele e viu os sete gatinhos, semiafogados.
Despejou a água do balde e os gatos recém-nascidos, aos encontrões, tentaram
trepar pelas paredes de plástico, escorregadias, mas caíam de costas, uns
sobre os outros, numa grande confusão. Havia três completamente negros, três
pretos e brancos e um cinzento-claro. Tinham todos os olhos fechados, como
se estivessem a fazer força para não os abrir, com as testas engelhadas como
uns velhinhos. E miavam sem parar.
A Dulce pegou no balde e desatou a correr na direcção do átrio de entrada da escola, onde se encontrava a chefe das funcionárias. Toda a gente
gostava da menina Celestina, por ela ter modos de mãe, embora não tivesse
filhos nem fosse casada.
- Que foi, minha riquinha? Por que vens a correr tanto? E para que é esse balde?
Ofegante, a Dulce tentou explicar o tesouro que encontrara:
- Sete gatinhos, três pretos, três pretos e brancos e um cinzento. São lindos, menina Celestina!
Tocou para a entrada.
- Ó minha jóia, é melhor ires para a aula - aconselhou a menina Celestina.
A Dulce não hesitou:
- Não posso. Tenho de tratar deste caso.
in "Cinco tempos, quatro intervalos"
Ana Saldanha
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