Logotipo da Associação de Professores de Português

Associação de Professores de Português

#na_tua_escola

José Jorge Letria

 

 

Entrevista a José Jorge Letria

# na_tua_escola: José Jorge Letria tem tido ao longo do tempo uma grande
diversidade de actividades - jornalismo, canção, intervenção política, etc.
Qual a importância que dá, neste contexto, à sua produção enquanto escritor
para a Infância e Juventude?

José Jorge Letria: Dou uma grande importância, tanto do ponto de vista estritamente literário, como do ponto de vista profissional, uma vez que, destacando o segundo aspecto, me assumo hoje como escritor profissional. Quanto à vertente literária, creio ser óbvia a relevância que lhe atribuo, uma vez que este espaço de criação é aquele em que sinto que melhor dialogo com os meus leitores e em que posso de algum modo deixar a marca do que penso e do que sinto acerca do mundo que me rodeia, mesmo sem ter a preocupação de querer transmitir uma mensagem específica.

 

# Revê-se nesta classificação de escritor infanto-juvenil?

JJL - Não me revejo nessa classificação porque "escritor infanto-juvenil", em boa verdade, é o escritor que ainda é criança ou já é jovem. Serei, se tanto, escritor para crianças e jovens. Mas, antes de qualquer outra coisa, o que sou e gosto de ser é escritor, o que significa que me recuso a considerar esta área da literatura um departamento menor da criação literária. Parafraseando Cecília Meireles, direi que escrever para os mais novos é o mesmo que escrever para os adultos, só que melhor

 

# Tem livros que brincam com rimas, outros que contam histórias, outros que têm uma vertente mais didáctica, como é o caso das "(...) explicadas aos
jovens".
Esta diversidade é consequência das suas múltiplas actividades profissionais ou é fruto de uma necessidade de expressão pessoal?

JJL - Atrevo-me a afirmar que essa reconhecida diversidade é a expressão literária de uma experiência plural e multifacetada, mas, sobretudo, da minha maneira de ser, marcada por um permanente desdobramento que me permitiu ir da música até ao teatro, passando pela poesia e pela ficção narrativa. Eu sou a soma dessas múltiplas vozes em que teimo em reconhecer-me, ainda que isso cause desconforto, não a mim mas a quem não gosta de seres plurais.

 

# Considera que existe sempre, mesmo na sua produção ficcional, uma vertente didáctica?

JJL - Essa vertente didáctica, que reconheço existir em muitos dos textos que tenho escrito, principalmente para os jovens, é fruto de um intenso sentido da cidadania que sempre tem pontuado o meu percurso como homem do meu tempo. Mais do que didáctico, pretendo ser pedagógico e praticar uma pedagogia dos valores referenciais, num país que está a ser criminosamente imbecilizado pelos meios de comunicação em geral e pelo perverso seguidismo mercantil que eles geram. Só o tempo nos poderá dar a exacta dimensão do estrago que já foi causado, desde logo pela transformação da ideia de fama numa verdadeira droga.

 

# Como funciona a parceria escritor/ilustrador; pai/filho, José Jorge Letria/André Letria?
Tem algo de peculiar em relação ao trabalho com outros ilustradores?

JJL - Trabalhar com o meu filho André Letria tem sido um imenso privilégio para mim, sobretudo porque ele é um excelente ilustrador. A singularidade da nossa colaboração vem da relação afectiva que entre nós existe e da proximidade natural que ela gera. Há outros ilustradores com quem tenho trabalhado e continuarei a trabalhar que são excelentes. Mas, trabalhar com um ilustrador da casa é uma felicidade de que não tenciono prescindir, assim ele disponha de tempo para aceitar as encomendas das editoras que publicam os meus livros.

 

# Como vê o papel do ilustrador nos livros para a Infância e Juventude?

JJL - É um papel essencial, e eu só lamento que isso ainda não tenha sido devidamente entendido por alguns escritores e por alguns editores, que deveriam colocar o ilustrador em pé de igualdade com o criador de texto. Há textos que não teriam qualquer impacto se não tivessem sido ilustrados de uma forma criativa e inovadora. De resto, a grande afirmação de qualidade, nos últimos anos, tem vindo muito mais da área dos ilustradores do que do território dos escritores. Obviamente, isso deverá ter expressão na paridade que, infelizmente, ainda não existe e que tem levado muitos ilustradores talentosos a abandonarem esta área de criação plástica.

 

# Os prémios são um reconhecimento público e um incentivo à obra de um escritor. Até que ponto esses prémios têm influenciado o seu percurso?

JJL - Os prémios são uma forma de reconhecimento que não se deve ignorar, seja na sua componente material, seja no prestígio e na visibilidade que asseguram. No entanto, não trabalho a pensar neles, ou seja, condicionado por eles. Orgulho-me muito de alguns prémios que me foram atribuídos em Portugal e no estrangeiro e que enriquecem o meu "curriculum" literário além de me responsabilizarem como autor. Penso que isso só costuma ser ignorado por quem nunca os recebeu ou por quem, faltando à verdade, finge não lhes atribuir qualquer significado. Receba-se, por exemplo, o Prémio Aula de Poesia de Barcelona ou o Prémio Internacional Unesco, que já me foram atribuídos, e ver-se-á o que se sente.

 

# Como jornalista, como responsável autárquico, que avaliação faz da relação que os jovens mantêm hoje com a leitura e com a cultura?

JJL - O espaço e o tempo ocupados na vida das crianças e dos jovens pelo audiovisual e pela informática não criam as condições ideais para que a relação com a leitura seja a melhor. Todavia, acredito que tanto um meio como o outro podem ajudar a promover o livro e a leitura. O esforço da família, da escola, dos escritores e, naturalmente, do Estado não pode ter pausas nem momentos de desânimo. Se tal acontecer, a batalha do livro e da leitura estará irremediavelmente perdida.

 

# Como vê o panorama actual português da Literatura Infanto-Juvenil?

JJL - Já o vi com mais optimismo do que vejo hoje. Têm aparecido poucos escritores de talento nas novas gerações e, para o meu gosto, há demasiadas incursões de "pára-quedistas", que nada tendo a ver com este universo literário, vêm tentar a sua sorte, porque dá jeito aos editores e, obviamente, também a eles. Não falo, claro, dos grandes escritores que episodicamente escrevem para crianças e jovens, como é o caso de José Saramago, Agustina ou Eugénio de Andrade, pois esses, com o seu talento, só iluminam este mundo de letras e imagens que tanto deles precisa.

 

# Tem alguma mensagem ou preocupação que queira partilhar com os professores, nomeadamente com os professores de Língua Portuguesa?

JJL - Tenho. Peço-lhes que nunca deixem de acreditar na missão fundamental que lhes foi confiada e de cujo êxito depende o futuro da literacia neste país. Sem eles e sem a sua competência e dedicação, o que seria da nossa língua e da nossa cultura ?

 

# Que livros e que autores lia quando tinha a idade dos seus leitores?

JJL - Havia muito menor oferta nesse tempo, mas muito mais disponibilidade para ler. Eu lia tudo o que me vinha parar às mãos, desde revistas de Banda Desenhada até livros tidos como obras para adultos. Recordarei sempre os contos de Perrault e de Andersen, "Peter Pan", "As Viagens de Gulliver", de Swift, "A Ilha do Tesouro", de Stevenson, e "O Principezinho".

# Que livro da literatura portuguesa ou universal aconselharia aos jovens?

JJL - Por várias razões que se prendem com os perigos e ameaças do mundo de hoje e com a importância que tem a capacidade de sonhar, recomendo "O Diário de Anne Frank", que ajudou a mudar a minha visão do mundo, e "O Principezinho", que me ajudou a tornar-me escritor.

Entrevista realizada por correio electrónico em Janeiro de 2003
 

 

 

 

Voltar para Índice Actividades de José Jorge Letria
Imagem de home  Logotipo de correio electrónico   Associação de Professores de Português #na_tua_escola (publicado em 11/1/2003)