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#na_tua_escola

Luísa Ducla Soares

     

 

 

A menina do capuchinho vermelho no século xxi

A Menina do Capuchinho Vermelho estava farta de viver num tempo antigo, num livro antigo.
Apanhou um dia o João, muito entretido a ler a sua história, e disse-lhe:
- Ajuda-me a saltar para o século XXI.
- Boa ideia! – exclamou o rapaz. Vem daí.
A garota pousou os pés no chão da sala, olhando à sua volta, espantada.
- Repara, está um elefante junto da tua janela.
Ele riu-se.
- Impossível! Eu moro no décimo andar. Aqui só chegam os pássaros.
A menina apontou para a televisão.
Mexendo no comando, o amigo mudou de canal e logo apareceu, por trás do vidro, o fundo do mar.
- Afinal tens uma caixa mágica – concluiu ela, preparando-se para ficar toda a tarde a ver filmes.
Mas o João tinha combinado ir visitar a avozinha.
- Veste o anorak azul – recomendou a mãe. — E leva uns bolinhos à avó Maria.
O rapaz vestiu o anorak, deu a mão à menina e saíram juntos.
- Esqueceste-te dos bolinhos que a tua mãe fez...
Como resposta, o garoto entrou com ela no supermercado.
- Aqui é que eu compro os bolos. A minha mãe passa o dia a trabalhar numa fábrica, não tem tempo para fazer gulodices.
A rapariga ficou admirada com aquela loja gigantesca. Esfregou os olhos pois parecia que estava num sonho. Para mostrar que era crescida e ajuizada, aconselhou:
- Não vamos pela floresta, que aí podemos encontrar o lobo mau...
João desta vez não se riu. A floresta à volta da cidade ardera no verão. Tinham-lhe deitado fogo para construírem mais prédios.
- E eu que gosto tanto de florestas...— choramingou a Capuchinho Vermelho. – nem posso pensar no mundo sem o verde das árvores, o perfume das flores, os bicharocos selvagens...
Iam a atravessar a rua quando... zás! surgiu um carro a grande velocidade.
As crianças fugiram para o passeio mas o veículo ainda embateu no saco de bolos do supermercado. Ficaram feitos numa papa.
- Cuidado! – gritou um polícia. Tomem atenção aos sinais. Querem morrer atropelados?
A menina nunca tinha visto um automóvel mas, depois daquela experiência, concluiu:
- Estou a ver que os carros ainda são mais perigosos que os lobos.
Cuidadosamente foram andando até casa da avozinha, que morava numa pequena vivenda com jardim.
- Truz, truz, truz! – bateu a menina.
- Trim, trim, trim! – tocou o rapaz à campainha.
A Dona Maria, espreitando pelo vídeo de porta, respondeu logo:
- Entra, meu netinho. Trazes uma amiguinha? Lembra mesmo a menina do Capuchinho Vermelho.
- E sou – exclamou ela. - Como hoje já não vou visitar a minha avó, fica para si o pão de ló que guardo no cestinho, feito com ovos das nossas galinhas.
A senhora ficou deliciada.
- Que maravilha! Hás-de me dar a receita.
Foi à dispensa buscar laranjadas e lancharam os três.
A certa altura, o telefone tocou. A avó foi atender. Quando pousou o telemóvel, até os olhos lhe sorriam.
- Como o lobo da velha história não veio visitar-nos, podemos ir nós visitar os lobos.
A menina do Capuchinho Vermelho assustou-se. O rapaz do anorak azul entusiasmou-se.
- Leva-nos ao jardim zoológico, avó?
- Não. No jardim zoológico, os lobos, coitados, estão presos numas jaulas. Até metem dó.
- Então? – perguntou o neto.
- Falou-me o Sr. Costa, que trabalha na reserva do Lobo Ibérico, para os lados da Malveira. Ofereceu-se para nos levar de boleia até lá, de jeep.
A garota desatou a tremer.
- Ai, os lobos devoram as meninas e as avozinhas... tenho medo. Vou voltar para a minha história.
- Que rapariga tão medricas! Há uma rede a separar-nos dos animais – disse a Dona Maria.
Lá foram os quatro. Passaram terras queimadas, povoações, chegando finalmente a uma casinha de madeira numa clareira.
- Já estou no meu ambiente! – exclamou a menina.
- Agora, – avisou o Sr. Costa – nada de barulho para não espantarmos os bichos.
- Vai caçá-los?—perguntou a garota, habituada aos caçadores que matavam os lobos no seu tempo.
- Não. É a hora da refeição deles.
- Que horror! – Eles têm horas certas para atacar os rebanhos? – afligiu-se a Capuchinho.
Os empregados do parque começaram então a dar de comer aos lobos, atirando pedaços de carne por cima da vedação.
- Parecem cães polícias! São lindos! Gostava de ter aquele com um olho azul, outro castanho.
O Sr. Costa disse então que podiam ser padrinhos de um lobo. Ajudavam-no a sobreviver e podiam visitá-lo sempre que quisessem.
- Eu quero ser madrinha de um bebé, do mais pequenino – murmurou a garota, já reconciliada com os seus antigos inimigos.
Foram até à casa de madeira. Cada um preencheu um papel. Depois receberam as fotografias dos seus afilhados.
A avó tirou dinheiro da carteira e entregou-o à senhora que estava ao balcão.
- É uma prenda para os nossos irmãos lobos, tão perseguidos ao longo dos séculos. O mundo também é deles!



Quando voltaram para casa, o menino do anorak azul perguntou à menina do capuchinho vermelho:
- Afinal peço à minha mãe para dormires no sofá-cama ou voltas para a tua história?



Digam-me lá vocês o que acham que ela resolveu.


Luísa Ducla Soares
 

No dia 7 de Janeiro de 2004, das 13h30 às 14h30 horas, Luísa Ducla soares participou numa conversa pela Internet (Chat) . A transcrição da conversa está nestas páginas.

Nesta sessão o objectivo era o de construir uma história com os alunos inscritos no Chat.
No início da sessão Luísa Ducla Soares propôs um início de história que incluía personagens já conhecidas dos alunos. No fim, enviou a todos, por correio electrónico, a história que tinha escrito e que acabaram de ler.

Ver o manuscrito deste conto

 
     
     Associação de Professores de Português #na_tua_escola (publicado em 12/1/2004)
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