Luísa Ducla Soares, entrevistada via correio electrónico. |
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Projecto #na_tua_escola: - Como começou a escrever para crianças? Luísa Ducla Soares: - Comecei a escrever para crianças quando era aluna universitária, por brincadeira, jamais pensando vir a dedicar-me à literatura infantil. Fazia, na altura, parte do grupo da Poesia 61 com Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Maria Teresa Horta, Luísa Neto Jorge, Casimiro de Brito. Interessava-me por poesia, pelo romance contemporâneo. Fiz a minha tese de licenciatura sobre James Joyce. Quando acabei a tese, que me mergulhou durante dois anos num mundo hermético, labiríntico, senti uma necessidade desesperada de coisas simples. Cheguei à conclusão de que o meu caminho não era o das vias intrincadas, da obscuridade, da linguagem cifrada. Queria algo de límpido e solar. Apetecia-me dizer aos outros directamente aquilo que eles pudessem entender sem recorrer a circuitos enredados de psicanálise, a estilos artificiosos, a pensamentos sublimes de obscuridade. Saltar para a literatura infantil foi uma escapada divertida. Aliás eu tinha uma grande prática de inventar histórias para crianças, desde o início da adolescência. Inventara-as durante anos para o meu irmão mais novo, sem nunca as escrever. Levei o meu primeiro livro, A história da papoila aos Estúdios Cor, deixando-o nas mãos de José Saramago, que o aceitou. Quis a sorte ou o azar que a esse livrinho pretendessem atribuir o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, que recusei, por motivos políticos, alegando que não recebia prémios de um governo que mantinha a censura. O dono da editora irritou-se. Mas Saramago deu-me razão e lançou-me uma proposta – publicar-me seis livros no ano seguinte. Foi assim que comecei a viciar-me na literatura infantil. Quando dei por mim estava tão interessada e envolvida no mundo dos mais novos que não consegui deixar de continuar a escrever para eles.
#NTE - Habitualmente é considerada uma escritora de literatura infanto-juvenil. Revê-se nesta classificação? LDS - Não escrevo só para crianças e jovens mas de forma alguma repudio a classificação. Há quem considere a literatura infanto-juvenil um género menor, tal como a literatura policial ou a ficção científica. Não é essa a minha opinião. E nada me preocupa que seja a opinião de certos críticos literários. Torna-se-me indispensável escrever para crianças, contrabalançando as cinzentas ocupações do meu dia a dia, as sete horas encafuadas na Biblioteca Nacional, entre calhamaços eruditos, com um computador diante do nariz... #NTE
- Na sua poesia há uma dimensão muito lúdica: as rimas, a sonoridade, o
sentido que é muito desconcertante... LDS - As crianças têm o direito de brincar. E as pessoas crescidas também... Gosto de escrever coisas divertidas. E de divertir as crianças. Aliás quando estou mais triste, deprimida, em vez de tomar um anti-depressivo, pego numa lapiseira e resolvo atirar com os problemas para trás das costas, entrando num mundo paralelo, por vezes no nonsense, onde toda a imaginação é permitida. #NTE - Dir-se-ia que nas suas histórias passa uma mensagem ao leitor mas não existe moralismo. Concorda? LDS - Um escritor, quer queira, quer não, acaba sempre por passar mensagens aos leitores. Deixa transparecer os seus valores fundamentais, as suas preocupações sociais e éticas. Sou uma pessoa com convicções muito firmes, pelas quais tenho norteado a minha vida. Ninguém mas impôs, fui-as assumindo pelas experiências da vida e decerto pela influência de livros que me marcaram. Nunca procuro pregar moral. Acho que tais pregações são descabidas e contraproducentes. Procuro antes apresentar situações. A partir daí as crianças podem ser levadas a reflectir, a sentir, a descobrir por si que há valores essenciais. #NTE
- Na prova de aferição de Língua Portuguesa, no final do ano de 2000/2001,
do 2º Ciclo, o texto foi extraído de um conto seu (O rapaz e o robô). LDS - Ao contrário de muita gente, gosto de ouvir críticas. As críticas fazem-nos muitas vezes pensar, repensar e melhorar. Mas, quanto à escolha do texto desgarrado de O Rapaz e o Robô, não dou razão a tais críticas, cujo principal empenho foi, a meu ver, pôr em causa a equipa do Ministério da Educação. O herói do livro (ou anti-herói, do meu ponto de vista) não era um monstro de perversidade mas apenas um rapaz comum. Tinha más notas a Matemática como mais de metade da população escolar portuguesa, e essa frustração levou-o, num assomo de raiva, a dar um pontapé numa pedra e partir, inadvertidamente, a montra de uma loja. Fugindo da chacota dos colegas, meteu-se num autocarro, sem destino, e veio a encontrar uma mala recheada de notas. Quem tiver paciência para ler o livro verá que essa fortuna ilícita e inesperada não foi a solução para os seus problemas e que arranjar um robô como substituto para todas as situações indesejáveis acabou por lhe trazer mais complicações que benefícios. O rapaz preguiçoso, indisciplinado teve de crescer e descobrir o seu caminho. Acabou, inclusivamente, por ser capaz de arriscar a vida para salvar um desconhecido. #NTE - Quando tinha a idade dos seus leitores que livros lia? LDS - Comecei por ouvir e depois ler contos tradicionais. Como andei dos cinco aos dez anos numa escola inglesa, familiarizei-me com a tradição britânica e acho que o gosto pelo nonsense poderá vir-me dessa tradição. O meu pai sabia de cor muitas lengalengas, muita poesia popular (e não só) que gostava de recitar. Uma criada antiga dos meus avós, analfabeta, sabia as histórias do Bocage, que me encantavam, e lendas terríficas de lobisomens e almas penadas que me enchiam de pavor e curiosidade. A literatura oral teve um grande peso na minha infância. Talvez mais importante que ler um livro, nos verdes anos, seja compartilhar o encanto da língua e de uma narrativa com alguém. O livro que mais recordo, dessa época, era uma grossa obra do século 19 em vários volumes intitulada “As maravilhas da natureza”. Pertencera ao meu avô e meu pai guardava-a num armário, como uma relíquia. Saía de lá aos Domingos e líamos os dois descrições e histórias de animais ilustradas com desenhos feitos à pena. Na adolescência recusei a literatura melada que pretendiam impingir-me Tive a sorte de receber de um tio (que queria aliviar a estante) as obras completas de Júlio Verne. Devorei-a de ponta a ponta. Li todo o Eça de Queiroz, que me proibiam, às escondidas, com uma lanterna debaixo dos lençóis. E descobri os poetas contemporâneos. #NTE - Na literatura infantil clássica ou actual, nacional ou estrangeira que livros indicaria a um jovem leitor português? LDS - Um livro é como um amigo. Os amigos escolhem-se, em geral, por afinidades. Um bom livro para uma criança não o é necessariamente para o irmão ou para o colega de carteira. Julgo que as recolhas de literatura tradicional (lengalengas, trava-línguas, adivinhas, contos populares portugueses) são indicadas para as crianças mais novas que, através delas, se familiarizam ludicamente com a beleza da língua, os seus ritmos e especificidades. Amar a língua desde a mais tenra idade é fundamental. A literatura clássica nem sempre se mantém clássica... Há formas de ver o mundo, tipos de narrativas e abordagens de temas que não se comprazem com o passar dos tempos. Muitos dos clássicos da literatura infantil só são legíveis pelas crianças em traduções e adaptações. E infelizmente muitas dessas traduções e adaptações desvirtuam as obras. Claro que há honrosas excepções... Quanto à literatura actual, podemos contar com uma riquíssima produção de obras de géneros muito diversificados, da aventura à poesia, da banda desenhada à ficção científica, da biografia à novela sentimental, dos livros de humor aos de reflexão. Ainda recentemente fiz parte de um grupo de trabalho que elaborou listagens de livros aconselháveis para crianças e jovens. Seleccionámos 450, ficando com a mágoa de não introduzirmos numerosas obras interessantíssimas e com a certeza de que muitos dos jovens que consultariam a lista seriam “alérgicos” a grande parte da selecção. Mais importante do que indicar meia dúzia de livros se me afigura habituar uma criança, um jovem a entrar nas bibliotecas, nas livrarias, deixando-os folhear à vontade isto e aquilo, dando-lhes como referência uma ampla listagem de obras classificadas por temas. Não procurando puxar a brasa à minha sardinha, não posso deixar de salientar a importância de os nossos jovens lerem os escritores portugueses actuais, que abordam uma realidade que lhes está mais próxima, além de pensarem e escreverem em português. E quem pode negar que haja bons autores de literatura infanto-juvenil entre nós? Respostas recebidas em 12 de Outubro de 2002
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