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A galinha pedrês da Senhora Inês tinha doze
ovos para chocar.
O gato maltês da Senhora Inês tinha doze ovos para cobiçar.
Enquanto a Senhora Inês punha o milho na tigela, enquanto saía do
ninho a galinha pedrês, veio o gato maltês e cravou a garra no ovo
mais graúdo. Espetou as unhas, fincou os dentes, mas o ovo não havia
maneira de partir. Então, por um buraquinho, pôs-se o gato a chupar,
suga que suga, como quem bebe por uma palhinha, mas... zás, catrapás!
Deu-lhe a galinha bicada
Deu-lhe a senhora pancada
E ele escapou-se a miar.
Três semanas se deitou a galinha sobre os ovos. Ao cabo do tempo
marcado, começaram os pintainhos a sair, redondos, amarelos - piu, piu,
piu -, à roda da galinha pedrês.
Só um ovo faltava. Também esse, por fim, estalou e dele surgiu,
pulando - sabem o quê? -, um meio pinto. Tinha meio corpo, uma só asa,
uma só pata.
Pinto tão estranho nunca se vira nas redondezas. Vinha gente de quintas
distantes para o conhecer. Desciam os pássaros das árvores para o
verem melhor e até a vaca, a caminho do pasto, parava, mugindo, diante
do fenómeno. O gato maltês ficava a ouvir as conversas, num ar de
troça por bichos e homens, resmungando para com os seus bigodes:
"Pena foi eu ter comido apenas metade... Inteirinho é que ele me
tinha apetecido."
O meio pinto cresceu, fez-se meio frango, meio galo e, em breve, a sua
meia voz de cana rachada acordava todos de madrugada. Tão guloso,
vaidoso, pomposo que não lhe cabia a fama nas dez léguas em redor.
Levantou a crista, empertigou o pescoço, gritando para quem o quis
ouvir:
- Vou para o palácio real, pois sou o rei dos galináceos.
Saltando ao pé-coxinho se foi afastando, até que encontrou um regato
parado, com o leito atulhado de troncos e folhagem.
- Vem cá! - pediu o regato. - Liberta-me, para eu poder continuar a
correr!
- Tenho pressa, sou o rei
A ninguém ajudarei!
Ia o Sol a pique no céu quando ouviu o manso crepitar de uma fogueira:
- Estou em cinzas. Abana-me com a tua asa, que não me quero apagar!
- Tenho pressa, sou o rei
A ninguém ajudarei!
E, perna para que te quero, pôs-se a marchar. Ao cair da noite, sentiu
um fraco gemido:
- Sou o vento que se enredou num silvado. Afasta com o teu bico as
folhas para que eu possa soprar!
- Tenho pressa, sou o rei
A ninguém ajudarei!
Assim continuou seu caminho até ao palácio real.
Entrou pela primeira porta que encontrou aberta e pôs-se a cantar:
- Sou rei, sou rei, sou rei
Aqui me instalarei!
Sou rei, sou rei, sou rei
Aqui me instalarei!
Mas, por pouca sorte, metera-se na cozinha. O cozinheiro deitou-lhe a
mão, pondo fim à cantoria.
- Se és rei, já vais reinar!
Atirou-o para uma panela pousada sobre o fogão.
- Salva-me, água! - piou o meio galo.
- Não me quiseste ajudar,
Agora vou-te afogar! - disse a água e cobriu-o.
Logo o fogo começou a saltar de um lado e outro, em labaredas…
- Salva-me, fogo! - piou o meio galo.
- Não me quiseste ajudar,
Agora vou-te queimar!
E assim foi.
Numa travessa de prata o levou o cozinheiro à
mesa real.
- Que é isto? Meio galo? E, ainda por cima, todo estorricado!
Agarrando-o pela asa, o rei atirou-o pela janela fora.
- Salva-me, vento! - piou mais uma vez o meio galo.
- Não me quiseste salvar,
Agora vou-te empurrar!
E tanto, tanto soprou, com tal fúria de vingança, que o meio galo à
torre mais alta foi parar. Agarrou-se com força, com a sua única pata,
mas mesmo assim o vento o faz rodopiar.
Talvez esteja bem perto de onde tu moras. Não viste, por acaso, no cimo
daquela torre, virando-se a mando do vento, um meio galo? Chamam-lhe o
cata-vento: olhando para ele se sabe em que direcção sopra o vento.
O Senhor Milhões herdara seu nome e seus
milhões de outro Senhor Milhões, filho de um Senhor Milhões, neto de
outro Milhões.
Tinha dinheiro como milho. Cofres de moedas de ouro, baús de moedas de
prata, caixotes de moedas de cobre.
Os seus lençóis eram feitos de notas de conto, muito bem cosidas umas
às outras; seus guardanapos eram notas de quinhentos; e em vez de papel
da retrete usava notas de cem.
Redondo como uma moeda, o Senhor Milhões tinha umas perninhas curtas,
que nunca andaram mais do que o espaço que ia da cama ao salão, da
casa de jantar à entrada do jardim. Tinha uns bracitos delgados, que
nunca haviam pegado em nada mais pesado do que um talher de prata.
A casa era forrada de espelhos. Neles se via, belo, reluzente, de careca
muito polida como uma bola envernizada, óculos de aros de ouro, dentes
de ouro, alfinete de ouro na gravata, botões de punho de ouro e moedas
de libras de cavalinho a fazer de botões. Da algibeira pendia-lhe um
relógio de ouro, a que nunca dava corda, pois as horas para si eram
todas iguais, e na ponta de uma corrente enorme tilintava um molho
imenso de chaves de todos os tamanhos e formatos.
Possuía o Senhor Milhões um exército de criados: porteiros,
motoristas, engraxadores, cozinheiros, limpadores de pó, enxotadores de
moscas, jardineiros, carregadores, alfaiates, cultivadores do campo.
Não faltavam sequer os capatazes, de chicote na mão, para os obrigar a
trabalhar.
Em redor das suas terras, cercando as suas gentes, erguiam-se muros
enormes, que ninguém podia transpor.
Mas certo dia, velho de centenas de anos, um dos portões enferrujou de
todo. Foi preciso tirá-lo para o substituir.
Então os homens de fora espreitaram as imensas quintas, as searas
curvadas ao peso do trigo, os trabalhadores curvados ao peso do trabalho
desmedido. Viram as flores vermelhas e as caras pálidas de abatimento.
O palácio de mármore e as cabanas de palha. O Senhor Milhões, à
janela, coberto de ouro e os seus homens esfarrapados e descalços.
Também os criados do grande ricaço se espantavam com o mundo que lhes
foi dado a ver: as casas com seus quintais, as caras com seus sorrisos,
as lojas com suas compras e o dinheiro nas mãos daqueles que
trabalhavam.
De repente, como se uma força os puxasse, os criados do Senhor Milhões
começaram a sair para a rua. Primeiro, a medo, um a um, hesitantes;
depois, aos pares, aos grupos, aos bandos, em aluviões. Largavam
enxadas, mata-moscas, tesouras, martelos; abandonavam rebanhos, manadas
de touros, coelheiras e capoeiras.
Cantavam e riam.
Habituado ao silêncio que nenhuma voz podia cortar, o Senhor Milhões
surgiu à varanda. Atarantado, dava ordens e contra-ordens. Ninguém o
ouvia.
Mandava chicotear, ordenava que prendessem.
Ninguém o ouvia.
Quando a noite desceu, estava sozinho com seus caixotes de moedas de
cobre, baús de moedas de prata, cofres de moedas de ouro. Sentou-se à
mesa - ninguém o serviu. Deitou-se - ninguém lhe apagou a luz.
Enrolou-se nos lençóis de notas de mil, assoou-se a uma nota de
cinquenta e toda a noite esperou que os criados voltassem.
Mas quando o dia raiou, nem um passo rangia nas salas, nem um vulto ao
longe se vislumbrava.
Então o Senhor Milhões, redondo, redondo como uma moeda, luzente,
luzente como o seu ouro, sentou-se na poltrona dourada, cobriu-se de
notas e deixou-se morrer de fome.
MENINOS DE
TODAS AS CORES
Era uma vez um menino branco, chamado Miguel, que vivia numa terra de
meninos brancos e dizia:
É bom ser branco
Porque é branco o açúcar, tão doce,
Porque é branco o leite, tão saboroso,
Porque é branca a neve, tão linda.
Mas, certo dia, o menino partiu numa grande
viagem e chegou a uma terra onde todos os meninos são amarelos.
Arranjou uma amiga chamada Flor de Lótus, que, como todos os meninos
amarelos, dizia:
É bom ser amarelo
Porque é amarelo o Sol
É amarelo o girassol
Mais a areia amarela da praia.
O menino branco meteu-se num barco para continuar sua viagem e parou
numa terra onde todos as meninos são pretos. Fez-se amigo de um pequeno
caçador chamado Lumumba, que, como os outros meninos pretos, dizia:
É bom ser preto
Como a noite
Preto como as azeitonas
Preto como as estradas que nos levam
Por toda a parte
O menino branco entrou depois num avião, que
só parou numa terra onde todos os meninos são vermelhos. Escolheu para
brincar aos índios um menino chamado Pena de Águia. E o menino
vermelho dizia:
É bom ser vermelho
Da cor das fogueiras
Da cor das cerejas
E da cor do sangue bem encarnado.
O menino branco foi correndo mundo até uma
terra onde todos os meninos são castanhos. Aí fazia corridas de camelo
com um menino chamado Ali-Babá, que dizia:
É bom ser castanho
Como a terra do chão
Os troncos das árvores
É tão bom ser castanho como um chocolate.
Quando o menino branco voltou à sua terra de
meninos brancos, dizia:
É bom ser branco como o açúcar
Amarelo como o Sol
Preto como as estradas
Vermelho como as fogueiras
Castanho da cor do chocolate.
Enquanto, na escola, os meninos brancos pintavam em folhas brancas
desenhos de meninos brancos, ele fazia grandes rodas com meninos
sorridentes de todas as cores.
O Senhor Godinho era um homem de bem. Gostava
das coisas simples, transparentes, puras. Gostava dos meninos e das
flores, do sol e da água, do vento. Gostava que todos gostassem uns dos
outros.
Por isso andava desiludido. Deixou de comprar os jornais, recheados de
notícias de guerras, roubos, mentiras e ódios. Deixou de ter gosto
pela sua cidade imensa, onde as pessoas passam indiferentes umas pelas
outras e a riqueza de uns não serve para matar a fome daqueles a quem
falta uma côdea de pão.
Despediu-se da família, fez as malas e embarcou para a selva.
Embrenhou-se pelo mato, evitando aldeias e povoados. Dormia ao relento,
comia bananas, amendoins e entretinha-se a observar a vida dos animais.
Também esta não era aquilo com que sonhara, pois até ali imperava a lei
do mais forte. Os leões, os leopardos e os chacais espalhavam o terror
pelas redondezas, os macacos rasgavam o silêncio com suas brigas e
zaragatas, as enormes jibóias, disfarçadas de troncos de árvores,
esperavam o bicharoco distraído que viesse encher-lhes a barriga.
Não existiriam amor e piedade em parte alguma do mundo?
Estava o Senhor Godinho mergulhado neste doloroso pensamento quando...
que viu ele?
Trincando um rato com as enormes dentuças, um pequeno crocodilo verde
chorava.
- Ao menos este tem compaixão! - murmurou o bom homem. - Mata porque a
isso é obrigado, mas como as lágrimas lhe correm pelo focinho,
coitado...
Apanhou-o a custo, comprou-lhe uma jaula e, farto da vida na selva,
resolveu regressar a casa. Mal por mal, antes viver no aconchego do lar,
com sofás de veludo, cama de molas e torradinhas com chá ao
pequeno-almoço.
Mandou construir no quintal um lago de cimento, rodeado de areia fina,
para o crocodilo. Logo à chegada Ihe encomendou um tenro lombo de vaca.
Qual não foi o seu espanto quando, ao dar a primeira dentada, o
crocodilo, de novo, começou a chorar.
- Coitadinho! Até da vaca tem pena e sofre por ter de a comer…
No dia seguinte, comprou-lhe frangos. Mas a cena repetiu-se. Mal as
dentuças tocaram nas asas dos galináceos, quatro grossas lágrimas
começaram a pingar dos olhos compadecidos.
Experimentou dar-lhe coelho - o choro continuava. Costeletas de burro -
mais lacrimejava ainda.
Cobaias, perdizes, gatos vadios, cabritos e passarada - tudo provou o
delicado crocodilo e de cada vez parecia que a sua dor arrasava o mundo.
A tristeza, no entanto, não lhe tirava o apetite nem o impedia de
crescer e fortalecer. Transformara-se num crocodilo de meter respeito.
A choradeira, no entanto, aumentava mais e mais. O Senhor Godinho
passara a gastar uma boa mesada em lenços de papel para o seu bichano
predilecto limpar as lágrimas.
Até que a certa altura resolveu deixar de dar carne ao crocodilo.
Passou a arranjar-lhe salada de alface, sopinhas de leite, fatias de
pão de forma com manteiga. Foi remédio santo: o crocodilo deixou de
chorar... e de comer, naturalmente. Foi-se pondo mais elegante, magro,
magricela, esquelético por fim. Mas um riso angélico aflorava-Ihe aos
"lábios".
Chamou, então, o Senhor Godinho um veterinário e contou-lhe a
história do crocodilo de coração de ouro que sempre que comia
chorava.
- Ó meu amigo, então você não sabe o que são lágrimas de
crocodilo? Sempre que um crocodilo come seus olhos produzem lágrimas,
ao mesmo tempo que a boca segrega saliva! Chora de gulodice, que por
tristeza não verte ele uma lágrima. Você deixou de lhe dar boas
bifanas e está a matar o bicho à fome. Veja! Mal se aguenta nas patas,
mal consegue abrir a bocarra.
- Pobre crocodilo! - suspirou o dono. E, num gesto de amizade,
abraçou-se-lhe ao pescoço.
O crocodilo pareceu compreender. Dois fios de lágrimas escorreram dos
seus olhos infinitamente tristes e zás!, o Senhor Godinho começou a
ser engolido. Valeu-lhe o veterinário que, num abrir e fechar de olhos,
deu cabo do monstro esfaimado. Com esta trágica cena o Senhor Godinho
voltou a ficar desiludido. Mas como nem tudo são males neste mundo e
até as desgraças podem trazer os seus benefícios, aproveitou para
mandar fazer uma carteira, um porta-moedas, um cinto e uma pasta da pele
do crocodilo.
Lado a lado viviam o primo Zé mais o primo
Barnabé.
Cada qual tinha a sua casa de pedra escurecida, apanhada aqui e além,
pelas serranias, cada qual a sua horta de pobre, com o milho a crescer
junto às batatas, couves repolhudas roídas pelos caracóis, meia
dúzia de galinhas a debicarem à solta. E cada qual tinha o seu sonho
também.
- Ah!, se eu tivesse uma vaca! - dizia o primo Zé -, não era eu que
engolia este café aguado. Havia de beber uma boa caneca de leite.
- E não seria o Barnabé a roer pão seco. Não! Havia de guardar as
natas para fazer manteiga, havia de ir buscar cardos ao monte para
talhar o leite e preparar queijos de se Ihes tirar o chapéu.
O primo Zé coçava a cabeça, o primo Barnabé repuxava o bigode, pois
bem sabiam que era sonho alto de mais para tão pequenas economias.
No entanto, mal se encontravam voltava a mesma conversa.
- Farta-se a gente de suar e esta terra não dá nada. O milho seca
antes de criar espiga, a batata é miúda e engelhada, as couves mais
duras do que caniços - lamentava-se um.
- Tivéssemos nós uma vaquinha isto andaria que nem um brinco.
Adubava-se a preceito, com bom estrume, e era ver as plantas crescerem,
os milhos dobrarem ao peso das maçarocas, as sacas encherem-se de
batatas, as couves tornarem-se tenras, viçosas que nem flores -
exclamava o outro.
Assim passaram semanas, meses, anos. Chegado Outubro, marchavam para a
feira a vender o que granjeavam, com a carteira magra no bolso do
casaco. Lá se ia o dinheiro em sementes, em pás e enxadas, lá se
gastava num casal de coelhos, numa cabra, num porco para a engorda.
Não deixavam por isso de parar diante das vacas de trabalho, amarelas,
musculosas, de grandes chifres revirados, das gordas vacas leiteiras,
todas malhadas, de pequenos chifres e grandes olhos meigos, resignados.
Primo Zé apalpava a carteira, primo Barnabé apalpava a carteira.
- Ah!, se eu tivesse oito notas de mil… - resmungava o Barnabé.
- Quatro contos ainda eu arranjo...
- Outros quatro, eu! - atalhou o primo
- E se comprássemos a meias aquela vaca?
Era uma estampa: branca e preta, de raça turina, muito luzidia, com uma
estrela preta na testa e uma estrela branca no lombo.
Resolvido o negócio, ataram-lhe uma corda ao pescoço e deitaram pernas
ao caminho.
Temos uma vaca
chamada Estrelinha
Metade é tua,
metade é minha.
Cantarolavam com bom humor.
Chegados ao seu destino, fizeram-lhe um curral - metade na terra de um,
metade na terra de outro - e aí instalaram a Estrelinha, vaidosa que
nem princesa num palácio.
Então, contemplando a obra, o primo Zé exclamou:
- Comprámos a vaca a meias, mas ainda não decidimos qual metade será
a minha - a da cabeça ou a do rabo.
- Mas que pergunta! Se queres que te diga, a cabeça sempre é mais
airosa, mais limpa, mas a mim tanto me faz.
- Então eu fico com a parte de trás.
No dia seguinte, logo de manhã, primo Barnabé encontrou o Zé a mungir
a vaca. Zumba que zumba, era apertar-lhe as tetas que o leite jorrava
num esguicho. Já enchera uma vasilha até ao gargalo. E para o carrinho
de mão acarretava duas pazadas de estrume.
- O meu trabalho está pronto! - disse o madrugador, esfregando as mãos
de contente. - Cabe-te a ti, agora, dar a ração ao animal, visto ele
comer com a boca, e essa parte não me pertence.
Ficou abismado o primo Barnabé, mas lá veio com seu carrego de palha,
de fava, de erva, enquanto o outro batia manteiga e fazia queijos para
ir vender.
Enriquecia o segundo, empobrecia o primeiro,
matutando na triste sorte que lhe coubera. A parte da frente da vaca só
dava gastos, a de trás rendia um dinheirão. Até que teve uma ideia...
- Ó primo - disse ele -, fartei-me da minha meia vaca. Desde que a
comprei que não passo da cepa torta, que não provo um naco de carne.
Ao menos hoje vou regalar-me com bifes!
E pôs-se a afiar um facalhão para cortar a vaca ao meio. Mas esta é
que não gostou da proposta. Atirou dois coices ao Barnabé, uma marrada
ao Zé e fugiu pela porta escancarada.
Assim acabou a história
De uma linda vaca
chamada Estrelinha
Metade é tua,
metade é minha.
Era uma vez um país à beira-mar, com
florestas, campos, cidades e gentes. Rasgado por estradas, cortado por
ruas, cheio de automóveis por toda a parte. Os jardins tinham sido
alcatroados para parques de estacionamento. As estátuas deitadas abaixo
para erguer bombas de gasolina.
Grandes petroleiros aportavam ao cais, carregados de petróleo que
grandes refinarias transformavam em gasóleo, gasolina, que, por sua
vez, grandes autotanques levavam até às grandes estações de
serviço.
Os sapateiros remendões tinham deixado de trabalhar porque já ninguém
se lembrava de andar a pé. Em vez de se gastarem solas, gastavam-se
pneus.
Os meninos ficavam fechados em casa para não serem atropelados e, de
rastos nos corredores, brincavam com automóveis-miniatura.
Longe, muito longe, do outro lado do mar, havia outros países com suas
gentes. Aí estoiravam bombas no deserto escaldante, furado de poços de
onde saía o petróleo. Morriam homens por um palmo de terra ou por uma
ideia. E como a única riqueza que possuíam era o petróleo, deixaram
de o fornecer aos países inimigos.
Os petroleiros, então, partiam e passavam a voltar vazios. Os
autotanques paravam junto ao cais, vazios; bichas enormes se formavam
junto às bombas quase esgotadas. Passou a vender-se vinte litros, dez
litros, cinco litros, um litro… até que acabou a última gota de
gasolina.
Então foi o pânico. Não havia sequer autocarros, carrinhas de escola,
carros de bombeiros ou ambulâncias. Os soldados passaram a ir para a
guerra a pé. Mas os generais e outros oficiais superiores requisitaram
os cavalos brancos da Guarda Republicana.
Os ministros conferenciaram pelo telefone e acharam por bem exigir os
camelos do Jardim Zoológico.
E o presidente? Como poderia ele fazer as suas deslocações
patrióticas, de Norte a Sul do território? Para o primeiro cidadão da
Nação, enfeitou-se, com grande pompa, o elefante que toca o sino no
Jardim Zoológico. Era imponente e tinha a grande vantagem de ir
recebendo moedas dos admiradores que se juntavam para o saudar.
Aqueles senhores endinheirados que andavam a matar gente com carros de
corrida compravam cavalos puro-sangue. Os homens da "Volta"
pedalavam bicicletas. As famílias numerosas optaram pelas últimas
carroças puxadas a mulas. As senhoras medrosas montavam vacas
leiteiras. Alguns pais extremosos fizeram carrinhos puxados a cães para
os meninos não faltarem às aulas. E o povo, os antigos donos dos
automóveis Mini e dos modelos comprados a prestações ou em segunda
mão? Começaram a comprar burros, tantos, tantos, tantos que em breve
toda a cidade estava atulhada de burros, trotando, galopando, embirrando
que não queriam andar.
Nas inúteis bombas de gasolina vendiam-se molhos de palha e braçados
de erva. Já ninguém tinha os ouvidos martirizados pelas buzinas, mas
pela bela voz grave e sentimental dos burros a zurrar.
E quando um condutor, furioso, gritava para o outro "saia da minha
frente, seu burro!", já ninguém se irritava, pois pensava que o
insulto era dirigido ao orelhudo bicho de quatro patas.
Nas terras da Noruega o Inverno é longo,
longo. Desce do Pólo Norte, num arrepio: os lagos ficam gelados, lisos
como espelhos, vergam-se as florestas ao peso mole dos flocos que caem,
imobilizam-se as cascatas entre os rochedos e a terra esconde-se debaixo
do grosso cobertor branco.
As andorinhas, as cegonhas, os patos-bravos voam em bandos para as
bandas do Sol, as renas esgravatam obstinadamente em busca da erva
congelada debaixo da neve. Os esquilos, nas tocas, comem as avelãs que
armazenaram no Verão, enquanto o urso, o lobo, a raposa descem das
serranias.
Chegara Dezembro. O frio cortava como uma faca e há muito que não
farejavam carne pelas redondezas. Trincavam neve ao almoço, lambiam
gelo ao jantar.
Andava a raposa tão chupadinha que parecia um cabide com a pele
pendurada, rabo caído a vassourar o chão, focinho afiado que nem ponta
de Iápis acabado de aparar. Resolveu, então, arrastar-se de noite até
à aldeia, rondar as capoeiras - galinhas recolhidas, fechadas a sete
chaves. Rastejou aos currais - portas trancadas, o gado bem a recato.
Luzes apagadas nas casas, estrelas apagadas no céu. Como era negra a
noite e ainda mais negra a fome. Então a raposa alongou os olhos para o
mar. Baloiçavam os barcos com suas lanternas e, ao longe ondulando,
aquelas luzes lembravam olhos de gato brilhando na escuridão. Pata ante
pata, desceu à praia, escondeu-se atrás das dunas e ficou à coca. Era
ainda madrugada quando os primeiros barcos aportaram. Entre os gritos
dos pescadores, o alvoroço das redes a abrirem, carregadas de peixe, a
raposa, num pulo, filou um bacalhau.
Fugiu com ele bem preso nos dentes, pesado, enorme, ainda a escorrer
água salgada.
Ao chegar à orla da floresta encontrou o urso, de olhos pasmados,
sentado na neve.
- Ó comadre raposa, que bela pescaria a sua! Não me dá ao menos a
guelra e a tripa do peixe?
- Nos tempos que correm tudo é pouco, amigo urso, e como tenho
frigorífico a comida não se me estraga. Por que não vai você à
pesca?
- Mas não tenho rede!
- Faça como eu: use o rabo como cana de pesca. Abra um furo no lago
gelado, meta lá o rabo de molho e quando sentir uma mordedela puxe
depressa e com força.
Assim fez o urso. Raspou um furo no gelo, enfiou o rabo, à Iaia de
cana, e esperou, esperou, esperou até que sentiu uma mordedela. Deu um
salto de dor e olhou para trás, à procura do peixe.
Nem peixinho nem peixão. A água tornara a gelar e o rabo do urso
ficara preso no bloco de gelo.
Sem pesca e sem rabo, voltou à floresta. E nessa noite, para não
variar, comeu sorvete, amaldiçoando a dona raposa, que, na Noruega como
em Portugal, é gaiteira, matreira, trapaceira e engana os outros bichos
de toda a maneira.
Era uma vez um varredor de ruas que de manhã
à noite percorria a aldeia cantando a mesma velha canção:
Varre, varre, vassourinha,
põe esta rua asseada;
os outros sujam-me tudo,
limpo eu a lixarada.
Mas um dia, cansado de tanto varrer,
encostou-se a um muro, limpou as mãos suadas ao fato-macaco e pôs-se a
matutar:
"Ora, os outros é que sujam e eu é que hei-de limpar... Vai
descansar, ó vassoura, que resolvi entrar em férias de uma vez para
sempre!"
Não tinha dado dois passos quando ouviu uma voz que há muito conhecia:
Sou padeiro, faço pão,
passo a vida a amassar
A amassar e cozer pão
que os outros hão-de tragar.
- Cada um que trate de si! - disse-lhe o
varredor. - Então estás a fazer pão para os outros comerem?
- Tens razão! Quem quiser que o faça! Espera aí, que vou contigo.
Seguiram rua fora. Logo na esquina, à janela do rés-do-chão, toparam
com a Menina Rosa, airosa, de carinha cor-de-rosa, debruçada sobre a
agulha:
Costureira, costureira,
estou farta de costurar,
De fazer lindos vestidos
que as outras irão usar.
- De tanto te dobrares, ficas velha antes de
tempo. Coser para as janotas? Não sejas pateta, vem connosco passear!
Alindou a cabeleira, alisou a saia de pregas e, em menos de um minuto,
ei-la no laró.
Não tinham passado um quarteirão quando ouviram uma rouca cega-rega:
Sapateiro remendão,
cá estou eu a remendar
Sentado, a arranjar sapatos
que outros pés irão calçar.
- Viemos desafiar-te para dar uma volta.
- Como, se tenho dez fregueses à minha espera?
- Trabalhar já não se usa. Quem não quiser marchar descalço que
trate dos seus sapatos.
Largou o sapateiro a ferramenta e deitou pernas ao caminho.
Avançavam tão alegre e despreocupadamente que quase iam embatendo num
aguadeiro que puxava um carrinho com duas enormes barricas. Raras eram
as casas que tinham água e ele, de porta em porta, ia abastecendo a
povoação:
Quem quer água bem fresquinha
para beber e refrescar?!
Os outros matam a sede,
eu mato-me a carregar.
- Os carregos são para os burros! Por que não vens divertir-te?
- Vou mesmo! Quem tiver a boca seca que vá encher bilhas à fonte.
Tinham tomado a estrada à beira-mar quando avistaram um pescador a
desembarcar caixotes de sardinha:
Deito a linha junto à costa,
a rede no alto mar
Mas os outros é que fritam
o peixe que ando a pescar.
- Deixa o mar, que é traiçoeiro! Já passou o tempo de trabalhar para
os outros.
- Pois claro! Quem quiser peixe que o vá pescar! - exclamou o pescador,
pousando a carga no fundo do barco outra vez.
Formavam já animado grupo - o varredor, a costureira, o padeiro, o
sapateiro, o aguadeiro e o pescador.
A manhã estava clara, o céu sem uma nuvem. Sempre em frente, campos
fora, os prados eram verdes, as matas densas e abrigadas.
Junto a um ribeiro, zumba que zumba, esfregava uma lavadeira:
De tanto lavar a roupa
tenho as mãos todas esfoladas
Os outros sujam camisas,
eu apresento-as lavadas.
- Gostas assim tanto de lavar? - indagou o
sapateiro.
- Eu não! Quem me dera poder passear como vocês. Mas tenho este monte
de roupa...
- Quem a sujou que a lave! - exclamou a costureira. Ao ouvir estas
palavras largou a lavadeira a trouxa na margem, passou as mãos
ensaboadas por água e juntou-se ao grupo.
Logo adiante encontraram um pastor:
Eu sou pastor de carneiros,
cansado de caminhar
Comem-lhes outros a carne
e eu é que os ando a guardar.
- Por que não vens antes connosco? Quem
quiser bifes que crie o gado.
Cajado, carneiros, cão - tudo o pastor ali deixou. Resplandecia agora o
Sol a pique. Sabia bem a sombra dos pinheirais. E como a hora do almoço
se aproximava, puseram-se a petiscar pinhões, abrunhos, amoras
silvestres.
Até que ouviram um grito de alarme:
Ao fogo, ao fogo, bombeiro,
põe a mangueira a esguichar
Para apagar as labaredas
que outros foram atear.
- Que vem a ser isto? - indagou o padeiro.
- É fogo no matagal. Oferecem-se para dar uma ajuda? - perguntou o
bombeiro, que avançava para as chamas.
- Nós? Nem pensar! - gritaram os oito em coro. - Quem ateou o lume que
o apague!
- Terei sido eu, por acaso? Também não fui. Seguirei o vosso exemplo,
pois já estou farto de fumaças e queimadelas.
Dizendo isto, atirou para longe capacete, machado, mangueira, arregaçou
as mangas e lá partiu cantarolando.
Descobrimos o descanso
Nosso ofício é mandriar
Fiquem para trás as canseiras,
vamos todos passear.
Assim trauteavam os nove amigos. Tinham
formado uma roda, enfeitado de flores os cabelos e, de mãos dadas,
saltitavam na erva fofa.
Então começaram a ver os pássaros voar em todas as direcções:
melros, pardais, milhafres e cotovias. Pulavam coelhos pela clareira,
corriam esbaforidas perdizes, cobras e lagartos rastejavam pelo chão.
Duas raposas e um lobo por eles se cruzaram, a galope, indiferentes aos
pequenos bichos a que costumavam chamar um pitéu.
- Naturalmente vão todos de passeio, como nós… - lembrou o
aguadeiro.
Enganava-se! Os animais da floresta não iam de passeio - fugiam de um
inimigo comum que avançava com seus braços e pernas de fogo,
crepitando, arrancando estalidos às árvores, contorcendo ramos,
abafando a mata numa nuvem sufocante.
O incêndio que o bombeiro não acabara de apagar crescera
assustadoramente.
- Ai!, que morremos queimados - choramingava a lavadeira.
- Salva-nos, bombeiro, mostra o que vales! - suplicava o sapateiro.
O bombeiro esquivava-se.
- Não fui eu quem acendeu o lume, não estou para me queimar.
Saltaram-lhe em cima os companheiros com ameaças, pancadas à mistura,
mas ele, a esbracejar, a engolir fumo, lá conseguiu fugir a sete pés.
Esgueiraram-se uns atrás dos outros, em rebuliço, cai aqui, levanta
acolá, berrando "ó da guarda!", chorando, suspirando.
Todo o dia correram, com o fogo a persegui-los, até que chegaram às
dunas desertas. Aí tombaram na areia, rotos, chamuscados, alagados em
suor.
Quando, na manhã seguinte, acordaram, resolveram voltar à aldeia. Pelo
areal fora, à chapa do sol. Apertava-lhes a fome como um alicate,
torturava-os a sede até lhes gretar os lábios.
Ao chegarem ao primeiro casebre, bateram à porta, suplicando um
cântaro de água.
- É água que vocês pretendem? Nem pinga, pois o mariola do aguadeiro
achou por bem entrar de folga! - replicou a dona da casa.
- Tem razão! - concordaram os amigos. - Mas ele já a vai buscar.
Empreste-lhe uma bilha.
- Eu? Por que não vão vocês, se também lhes apetece beber? - refilou
o homem.
Razão puxa razão, envolveram-se noutra barafunda.
- Comamos ao menos qualquer coisa - sugeriu a costureira.
Lá se arrastaram, mais mortos que vivos, até ao café da terreola.
Finalmente encomendaram sardinha assada, carneiro guisado e pão com
chouriço.
- Peixe é coisa que não há. Nem carne tão-pouco. Pão, desde ontem
que o não vimos. Ah!, grandes malandros, agora reparo que aqui estão o
pastor, o padeiro e o pescador. Por vossa causa perdi toda a freguesia!
Já para a rua, mandriões!
Dizendo isto, o cozinheiro pegou no rolo da massa, escorraçando a
tristíssima comitiva.
Mais uma vez só lhes restava seguir caminho. Tinham os sapatos
cambados, rotos - era preciso mandar consertá-los.
- Vamos até à loja do sapateiro.
- Ora essa, o combinado não foi não trabalharmos? Consertem vocês o
calçado!
Se os sapatos estavam rotos, os fatos não estavam em melhor estado.
Rasgados pelas silvas, queimados pelo fogo. Resolveram, pois, dirigir-se
a casa da modista.
- Pois não foram vocês que me convenceram a abandonar a costura? -
Não contem comigo! - atalhou a Menina Rosa.
- Ao menos a lavadeira que nos lave estes trapos...
- Nem pensar! - apressou-se ela a responder. - Se vocês nasceram para o
descanso, eu não nasci para me cansar.
Acabaram-se a paz e o sossego. Todos se criticavam, todos se injuriavam.
Avançavam, rezingando, entre o lixo espalhado pelas ruas, os caixotes
tombados onde os rafeiros farejavam um osso, os gatos procuravam uma
espinha.
- Que porcaria!
- Isto não são ruas, são estrumeiras!
- Pega na vassoura, que não podemos dar um passo - pediam ao almeida.
Mas ele, gingão, trocista, mal-humorado, por única resposta dava
pontapés às latas e cascas de batata.
O povo assomara às portas, troçando dos mandriões que se viam
exaustos, miseráveis, zangados entre si.
Então o padeiro suspirou e encaminhou-se para a padaria. A costureira,
com a lágrima ao canto do olho, foi para a sua casita modesta e
agarrou-se à costura. O pescador fez-se ao mar, a lavadeira deu meia
volta, regressando ao rio. O aguadeiro curvou-se para o carrinho de
mão, o pastor voltou para os campos à procura do rebanho, o bombeiro
aprumou-se e, em passo de parada, dirigiu-se para o quartel. O varredor
recomeçou a vassourar. Acompanhando o raspar da vassoura, a sua nova
cantiga ressoava pelo ar:
Sem os outros nada somos
Eles sem nós nada são
Vale bem mais trabalhar
Do que ser-se mandrião.
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