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Associação de Professores de Português

#na_tua_escola

Luísa Ducla SoaresAssinatura de Luísa Ducla Soares

Poemas da Mentira e da Verdade, 
de Luísa Ducla Soares

Edição Livros Horizonte

Poemas da mentira

Canção da mentira    
Tudo ao contrário    
Peguei na serra da estrela    
Abecedário sem juízo    
Música    
Casamento    
A força das palavras    
Trocas    
A minha casinha    
À mesa    
D. Gonçalo a cavalo    
O que uma criança sofre    
Romance das dez meninas casadoiras    
A sementeira    
Rio douro     
Da minha janela à tua    
Perguntas    
Os números do menino guloso    
Tudo de pernas para o ar    
Se a panela tem asas    
Vamos trocar    
Poema às massas

 

Poemas da verdade

O jardineiro    
Quanto custa    
Noite    
Poema em G    
Poema em P    
Se    
Sonho
O tempo    
O carrocel    
Pai    
O búzio    
Entre 4 paredes    
No bairro de lata    
A mãe    
A menina azul    
A menina feia    
A sombra    
Sim ou não    
Rei, capitão, soldado, ladrão    
A união faz a força    
Eu queria ser Pai Natal 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CANÇÃO DA MENTIRA
Foi numa serra nevada
em Vila Franca de Xira
que um lagarto me ensinou
esta canção da mentira.
Ia um rei a cavalgar
na sua pulga preferida,
em cada salto saltava
uma légua bem medida.
Encontrou uma princesa
que chiava de aflição
ao ver um gato com garfo
e faca a comer um cão.
Como era um rei corajoso
puxou da espada de pau
para fugir a sete pés
mas tropeçou num lacrau.
Passou por baixo da ponte
quando chegou junto ao rio.
Tanto apertava o calor
que ele tremia de frio.
Visitou uma cidade
que andava a fazer o pino,
onde as igrejas dançavam
equilibradas no sino.
Quando voltou ao castelo
no meio do olival
viu carapaus a voarem
e nuvens a chover sal.
Veio o pai abrir-lhe a porta
quando ele bateu - truz, truz.
Estava a mãe a nascer
do ovo duma avestruz.
Como um disco voador
colhia flores no jardim,
embarcaram todos três
e a história chegou ao fim.

TUDO AO CONTRÁRIO
O menino do contra
queria tudo ao contrário:
deitava os fatos na cama
e dormia no armário.
Das cascas dos ovos
fazia uma omelete;
para tomar banho
usava a retrete.
Andava, corria
de pernas para o ar;
se estava contente,
punha-se a chorar.
Molhava-se ao sol,
secava na chuva
e em cada pé
usava uma luva.
Escrevia no lápis
com um papel;
achava salgado
o sabor do mel.
No dia dos anos
teve dois presentes:
um pente com velas
e um bolo com dentes.


PEGUEI NA SERRA DA ESTRELA
Peguei na Serra da Estrela
para serrar uma cadeira
e apanhei um nevão
numa serra de madeira.
Com as linhas dos comboios
bordei um lindo bordado,
quando o comboio passou
o pano ficou rasgado.
Nas ondas do teu cabelo
já pesquei duas pescadas.
Olha para as ondas do mar,
como estão despenteadas.
Guardo o dinheiro no banco,
guardo o banco na cozinha.
Tenho cem contos de fadas,
que grande fortuna a minha.
Com medo que algum ladrão
um dia me vá roubar,
mandei pôr na minha porta
três grossas correntes de ar.
Encomendei um cachorro
naquela pastelaria;
quem havia de dizer
que o maroto me mordia?!
Apanhei uma raposa
no exame e estou feliz:
vejam que lindo casaco
com a sua pele eu fiz.
Entrei numa carruagem
para voltar à minha terra,
enganei-me na estação
e desci na Primavera!



ABECEDÁRIO SEM JUÍZO
A é o André, a beber a água pé.
B é o Bruno, vai a fugir dum gatuno.
C é a Camila, com corpinho de gorila.
D é o Daniel, come lenços de papel.
E é a Ester, que nunca usa talher.
F é o Frederico, está sentado no penico.
G é o Gonçalo, já hoje levou um estalo.
H é a Helga, picada por uma melga.
I é a Inês, a dar beijos num chinês.
J é o João, põe ratos dentro do pão.
L é a Luísa, vai para a rua sem camisa.
M é a Maria, que só dorme todo o dia.
N é o Norberto, que gosta de armar em esperto.
O é o Olegário, caiu dentro do aquário.
P é a Paula, tira bananas da jaula.
Q é o Quim, meteu a mão no pudim.
R é a Raquel, que se besunta com mel.
S é a Sara, com dez borbulhas na cara.
T é o Tiago, a pescar botas no lago.
U é o Urbino, que sofre do intestino.
V é a Verónica, tem a preguicite crónica.
X é o Xavier, usa roupa de mulher.
Z é a Zulmira, que na aula dança o vira.

MÚSICA
Paulina toca piano
e Virgílio, violino.
Toca Tomás o tambor
e o sacristão toca o sino.
Eu toco à porta da rua,
para irritar a vizinha,
quarenta vezes seguidas
o botão da campainha.


CASAMENTO
Casei um cigarro
com uma cigarra,
fizeram os dois
tremenda algazarra
porque o cigarro
não sabe cantar
e a cigarra
detesta fumar.
Não digam que errei
(mania antipática!)
só cumpri a lei
que manda a gramática.
A FORÇA DAS PALAVRAS
Juntei várias letras -
escrevi um letreiro.
Acendi as brasas -
que grande braseiro!
Soltei quatro berros -
armei um berreiro.
Juntando formigas
fiz um formigueiro.
Será que com carnes
se faz um carneiro?


TROCAS
Se me deres
a lapiseira
dou-te um gomo de maçã.
Se me deres
um livrinho
dou-te as asas de uma rã.
Se me deres
uma boneca
dou-te a flor que dá a lã.
E se eu
não te der nada?
Largo aqui uma galinha
para te dar uma dentada.


A MINHA CASINHA
Fiz uma casinha
de chocolate,
tapei-a por cima
com um tomate.
Pus-lhe uma janela
de rebuçado
e mais uma porta
de pão torrado.
Pus-lhe um chupa-chupa
na chaminé;
a fazer de neve,
açúcar pilé.
A minha casinha
bem saborosa...
comi-a ao almoço.
Sou tão gulosa!

À MESA
A mãe, se me vê
comer com a mão,
prega-me logo
uma lição.
Então tentei
comer com o pé:
Tirei sapato,
tirei a meia...
Ia levando uma tareia.
Mas amanhã
não ralham comigo
pois vou comer
pelo umbigo.


D. GONÇALO A CAVALO
Era uma vez um rei
chamado D. Gonçalo -
passava toda a vida
montado num cavalo.
Com crinas se tapava,
dormia, que regalo,
até nascer o dia,
deitado no cavalo.
Comia no selim,
bebia do gargalo,
nem para fazer chichi
descia do cavalo.
País que ele pisasse,
era para conquistá-lo
com muita espadeirada,
galopando a cavalo.
Entrou na catedral
ao bater do badalo
quando se quis casar
montado no cavalo.
Mas a Dona Marçala,
mulher de D. Gonçalo,
não queria ser rainha
vivendo num cavalo.
Quando ele a quis beijar
ela lhe deu um estalo -
caiu el-rei Gonçalo
abaixo do cavalo.
De tanto cavalgar
no rabo tinha um calo
e as pernas eram tortas
com forma de cavalo.
Já não sabia andar.
Pegou nele um vassalo.
Que havia de fazer?
Montou-o no cavalo.


O QUE UMA CRIANÇA SOFRE
Larguei o canário
no meu aquário
para ele nadar.
Em vez de ficar
contente comigo,
à noite, o meu pai
pôs-me de castigo.
Deitei o peixinho
no meio do ninho
para descansar.
Em vez de ficar
contente comigo,
à noite, o meu pai
pôs-me de castigo.
Enterrei dinheiro
dentro do canteiro
para o semear.
Em vez de ficar
contente comigo,
à noite, o meu pai
pôs-me de castigo.
Eu dei ao bebé
só um pontapé
para ele voar.
Em vez de ficar
contente comigo,
à noite, o meu pai
pôs-me de castigo.


ROMANCE DAS DEZ MENINAS CASADOIRAS
São dez as meninas
e sobre elas chove,
mas chega um bombeiro
e ficam só nove.
São nove meninas
comendo biscoito
mas chega um padeiro
e ficam só oito.
São oito meninas
fazendo uma omelete
mas chega um guloso
e ficam só sete.
São sete meninas
pintando papéis
mas chega um pintor
e ficam só seis.
São seis as meninas
à volta de um brinco
mas chega um ourives
e ficam só cinco.
São cinco meninas
que vão ao teatro
mas chega um actor
e ficam só quatro.
São quatro meninas
falando francês
mas chega um estrangeiro
e ficam só três.
São três as meninas
guardando peruas
mas chega um pastor
e ficam só duas.
São duas meninas
nadando na espuma
mas chega um barqueiro
e fica só uma.
É uma menina
a apanhar caruma
mas chega um leão,
não fica nenhuma.


A SEMENTEIRA
Semeei na minha quinta
os cacos duma caneca:
nasceu um velho sem dentes
a pentear a careca.
Semeei na minha quinta
três postinhas de pescada:
nasceram três gatos-tigres
com a cauda arrebitada.
Semeei na minha quinta
um lápis bem afiado:
nasceu uma professora,
mandou-me fazer ditado.
Semeei na minha quinta
seis carros do meu irmão:
antes que algo nascesse,
ele deu-me um bofetão.


RIO DOURO
Rio Douro
De ouro o anel
Anel de Saturno
Saturno planeta
Planeta solar
Solar do Marquês
Marquês de Pombal
Pombal das pombas
Pombas da paz
Paz e amor
Amor ao próximo
Próximo comboio
Comboio a vapor
Vapor de água
Água com peixes
Peixes do rio
Rio Douro.


PERGUNTAS
Os ladrões vivem
nas águas furtadas?
O peito do pé usa soutien?
Em que carpintaria funciona
a Serra da Estrela?
Quando se come um prego, fica-se com ferrugem na barriga?
Em que mês aparecem
andorinhas no céu da boca?
O Sumo Pontífice é feito
de que sumo?
Em que guerra foi usado
o peixe espada?

DA MINHA JANELA À TUA
Da minha janela à tua
vai o salto duma rã.
Dá-me bolinhos de mel
ao acordar, de manhã.
Da minha janela à tua
vai o salto dum cabrito.
Empresta-me a tua bola,
senão ainda me irrito.
Da minha janela à tua
vai o salto dum coelho.
Faz-me os trabalhos de casa
Pois és dois dias mais velho.
Da minha janela à tua
vai o salto dum burrico.
Eu estou a pedir-te um beijo,
Tu atiras-me um penico!


OS NÚMEROS DO MENINO GULOSO
Dá-me bolinhos
mas não só um.
Desde o almoço
faço jejum.
Dá-me bolinhos
mas não só dois.
Como um agora
outro depois.
Dá-me bolinhos
mas não só três,
que os vou papar
duma só vez.
Dá-me bolinhos
mas não só quatro,
para os provar
logo no quarto.
Dá-me bolinhos
mas não só cinco.
Com tanta fome
eu bem os trinco.
Dá-me bolinhos
mas não só seis,
todos maiores
que bolos reis.

TUDO DE PERNAS PARA O AR
Numa noite escura, escura,
o sol brilhava no céu.
Subi pela rua abaixo,
vestido de corpo ao léu.
Fui cair dentro de um poço
mais alto que a chaminé,
vi peixes a beber pão,
rãs a comerem café.
Construi a minha casa
com o telhado no chão
e a porta bem no cimo
para lá entrar de avião.
Na escola daquela terra
ensinavam trinta burros.
O professor aprendia
a dar coices e dar zurros.

 

SE A PANELA TEM ASAS
Se a panela tem asas
decerto pode voar.
Ai, minha rica sopinha
onde irá ela parar?
Hei-de comprar uns sapatos
para os pés da minha cama.
Por andar sempre descalça
toda a noite ela reclama.
As costas desta cadeira
estão cheias de comichão.
Ó cadeira, não te coces,
que me atiras ao chão.



VAMOS TROCAR
- Vou comprar uma mãe nova
e um pai do meu agrado.
Devem-se escolher os pais
que temos ao nosso lado.
Uma mãe que deite notas
pela boca, pelo nariz,
um pai que deteste a escola
e me leve para Paris.
- Boa ideia, trocar filhos -
disse o pai e mais a mãe.
- Venha um filho muito amigo,
que é o melhor que se tem.
Fiquei meio embaraçado.
Que havia de decidir?
Dei-lhes logo um grande abraço
e desatámos a rir.


POEMA ÀS MASSAS
Amassa a massa o padeiro,
vende massa o merceeiro,
usa massa o vidraceiro
e também o cozinheiro.
Na Avenida e no Rossio
passam massas populares,
as canções que as massas cantam
vão voando pelos ares.
Ó ladrão, senhor ladrão,
responda, mas não se zangue,
a mania de roubar
está-lhe na massa do sangue?
Perdi todo o meu dinheiro,
fui pedir massa emprestada,
mas a massa que me deram,
vejam - foi massa folhada!
Uma massa, outra massa...
Com tanta massa amassada,
digam lá se este poema
não é mesmo uma maçada!



O JARDINEIRO
Na cidade
há um jardim
e no jardim um canteiro
e no meio do canteiro
está cavando o jardineiro.
A terra suja-lhe os pés,
rasgam-lhe rosas as mãos,
as dálias roçam-lhe a cara
quando se dobra para o chão.
Há um jardim na cidade
e no jardim um canteiro;
quem vê as flores que lá estão
não pensa no jardineiro.


QUANTO CUSTA
Ó senhor crescido,
quanto custa a lua?
Não custa dinheiro,
se quiseres é tua.
Ó senhor crescido,
e o sol é caro?
Não custa dinheiro
este sol tão claro.
Ó senhor crescido,
mas a Terra então?
Meu pai diz que a terra
custa um dinheirão
e eu vi no jornal
que um metro de terra
custa um conto e tal!


NOITE
Filho,
meu filho,
vem-te deitar.
Já sobre o mar
o sol se deitou.
Mãe,
e a lua
se levantou.
Se tenho mãos
é para mexer,
nunca mais quero
adormecer.
Filho,
meu filho,
vem-te deitar.
Já sobre o mar
o sol se deitou.
Mãe,
e a lua
se levantou.
Se tenho pés
é para correr,
nunca mais quero
adormecer.
Filho,
meu filho,
vem-te deitar.
Já sobre o mar
o sol se deitou.
Mãe,
e a lua
se levantou.
Se tenho olhos
é para ver,
nunca mais quero
adormecer.
Pôs-se a contar
estrelas no céu;
chegou a vinte,
adormeceu.
 

POEMA EM G
Graça não gosta da guerra.
Guilherme não gosta da guerra.
Guida não gosta da guerra.
A guerra matou-lhes o pai.
A guerra queimou-lhes a casa.
A guerra espantou-lhes o gado.
Graça, Guilherme, Guida gritam.
As granadas estoiram.
Agora o sangue irriga as ruas.
Graça, Guilherme, Guida
querem gritar
à gente grande
que se fica sempre a perder,
mesmo que os generais
ganhem as guerras.


POEMA EM P
A Paula
pede a paz.
Os pardais
os peixes
os pandas
as plantas
as pedras
pedem a paz.
Os palhaços
os polícias
os pintores
os padeiros
os poetas
pedem a paz.
Os prédios
as praias
os pastos
as pontes
as piscinas
pedem a paz.
O planeta
pede a paz.
Políticos,
não ponham na panela
a pomba da paz.
SE...
- Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.
- Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.


SONHO
Montei um cavalo
que vi no terraço,
voei para o circo
e fiz-me palhaço.
Toquei concertina,
dancei ao compasso,
dei saltos mortais
através do espaço.
Com um macaquinho
pousado no braço,
a cada menino
eu dei um abraço.
Desci os degraus
do sonho do meu quarto,
caí sobre as coisas
de que já estou farto.
Em tudo o que sou,
em tudo o que faço,
já não resta nada
daquele palhaço.


O TEMPO
Perdi o tempo
na rua
perdi o tempo
a brincar.
Ando agora atrás do tempo
não o consigo encontrar.
Mas prometo vinte escudos
a quem mo tornar a dar.

O CARROCEL
Rodando no carrocel
subo e desço uma montanha.
No meu cavalo de pau,
A galope, quem me apanha?
À volta, à volta, entre o vento,
o riso, a luz, as canções,
corro entre duas girafas,
seguido por três leões.


PAI
Pai,
vens com os olhos cansados,
os dedos gretados,
os pés doridos,
os sonhos moídos.
Onde colheste o sorriso
que me dás
como uma flor?


O BÚZIO
Pus um búzio da praia
na concha do meu ouvido.
Logo ouvi o mar chamar
muito longe, num gemido.
Ó mar,
Ó mar...
Peguei num búzio das águas,
pousado ali na areia.
Ele guardava a canção
secreta duma sereia.
Ó mar,
Ó mar...
É só um búzio das ondas,
todos o julgam vazio.
Mas eu viajo lá dentro
num sonho feito navio.
Ó mar,
Ó mar...


ENTRE 4 PAREDES
Pintei os sapatos de verde
para pisar um relvado.
Pus um vestido de rosas
com seu perfume encarnado.
Colei pratas nas janelas
como estrelas amarelas.
Fiz de uma vassoura
de pernas para o ar
uma palmeira
ao vento a cantar.
Baloiçando o baloiço
do velho cortinado
voei enfim
pelo meu jardim
inventado.


NO BAIRRO DE LATA
Na rua
que não é rua
na casa
que não é casa
uma bola
que não é bola.
Mas se o menino
a rebola
a bola finge de bola
a casa finge de casa
a rua finge de rua.
E o menino
finge ou acredita
que a Terra também é sua?

A MÃE
A mãe
é uma árvore
e eu uma flor.
A mãe
tem olhos altos como estrelas.
Os seus cabelos brilham
como o sol.
A mãe
faz coisas mágicas:
transforma farinha e ovos
em bolos,
linhas em camisolas,
trabalho em dinheiro.
A mãe
tem mais força que o vento:
carrega sacos e sacos
do supermercado
e ainda me carrega a mim.
A mãe
quando canta
tem um pássaro na garganta.
A mãe
conhece o bem e o mal.
Diz que é bem partir pinhões
e partir copos é mal.
Eu acho tudo igual.
A mãe
sabe para onde vão
todos os autocarros,
descobre as histórias que contam
as letras dos livros.
A mãe
tem na barriga um ninho.
É lá que guarda
o meu irmãozinho.
A mãe
podia ser só minha.
Mas tenho de a emprestar
a tanta gente...
A mãe
à noite descasca batatas.
Eu desenho caras nelas
e a cara mais linda
é da minha mãe.
A MENINA AZUL
A menina azul
é fresca como um azulejo
e tem lagos nos olhos.
A menina azul
é a fada
que pintou o céu.
A menina azul
é a água-marinha
dum anel.
A menina azul
quando se zanga
fica azul escura
e quando ri
tão clara
como um regato.
A menina azul
tem sonhos azuis
como peixes ondulantes.
A menina azul
tem sangue azul
como tinta de escrever.
A menina azul
é uma princesa de tule
que dança os tons
do azul, azul, azul...

A MENINA FEIA
A menina feia
tem dentes de rato
e pêlos nas pernas
à moda de um cacto.
A menina feia
tem olhos em bico
e o seu nariz
pica como um pico.
A menina feia,
sardenta, gorducha
não parece gente,
só lembra uma bruxa.
***
Se fechares teus olhos,
a ouvires cantar,
é uma sereia,
princesa do mar.
Se fechares teus olhos
e chegares pertinho,
ela cheira a rosas
e a rosmaninho.
Se lhe deres a mão,
vês que é de veludo
e tens uma amiga
pronta para tudo.
A SOMBRA
Eu tenho uma amiga, a sombra,
que anda comigo e não fala.
Por mais que eu puxe conversa,
sempre a marota se cala.
Logo que corro para o sol,
estende-se a sombra no chão.
Pisam-na todos os pés
e senta-se nela o cão.
Salta para trás e para a frente,
pula para cima, para o lado,
mas parece que está presa
à sola do meu calçado.
Faz tudo aquilo que eu faço:
macaca de imitação!
Até se lhe dou um estalo
me quer dar um safanão.
Eu sou branco, ela é preta,
ando em pé, ela deitada.
Mas nunca nos separamos
até ser noite fechada.
SIM OU NÃO?
Sim, não,
sim, não...
Ou fico com fome
ou como feijão.
Sim, não,
sim, não...
Ou visto pijama
ou ponho calção.
Sim, não,
sim, não...
Ou subo ao pinheiro
ou brinco no chão.
Sim, não,
sim, não...
Ou vou ao cinema
ou leio a lição.
Sim, não,
sim, não...
Ou sou um porquinho
ou uso sabão.
Sim, não,
O que hei-de fazer?
Mas que indecisão!
REI, CAPITÃO, SOLDADO, LADRÃO...
Rei, capitão,
soldado, ladrão,
menina bonita
do meu coração.
Não quero ter coroa,
nem arma na mão,
nem fazer assaltos
com um facalhão.
Quero ser criança,
quero ser feliz,
não quero nas lutas
partir o nariz.
Quero ter amigos
jogar futebol,
descobrir o mundo
debaixo do sol.
Rei, capitão,
soldado, ladrão,
não.
Mas quero a menina
do meu coração.
A UNIÃO FAZ A FORÇA
Se todas as terras
se fossem juntar
mas que grande monte
iriam formar.
Se todas as águas
se fossem juntar
mas que grande mar
iriam formar.
Se os homens de paz
se fossem juntar
mas que grande exército
iriam formar.
E por sobre a terra
e por sobre o mar
então é que as guerras
iam acabar.
EU QUERIA SER PAI NATAL
Eu queria ser Pai Natal
e ter um carro com renas
para pousar nos telhados
mesmo ao pé das antenas.
Descia com o meu saco
ao longo da chaminé,
carregado de brinquedos
e roupas, pé ante pé.
Em cada casa trocava
um sonho por um presente.
Que profissão mais bonita
fazer a gente contente!

LIVRO
Livro
um amigo
para falar comigo
um navio
para viajar
um jardim
para brincar
uma escola
para levar
debaixo do braço.
Livro
um abraço
para além do tempo
e do espaço.
* A Associação de Professores de Português agradece a Luísa Ducla Soares e a Livros Horizonte a autorização para publicar integralmente esta obra.
   Logotipo de correio electrónico  Associação de Professores de Português #na_tua_escola (publicado em 22/1/2003)