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#na_tua_escola:
Porque é que nas grandes histórias da literatura os escritores para
a infância e juventude ocupam um lugar tão modesto?
Se é que em algumas não são pura e simplesmente esquecidos.
Matilde Rosa Araújo: Porque a Literatura
para a Infância foi sempre considerada marginal. Nem foi considerada!
Só no princípio do século passado começa, de certo modo, a ser
considerada. Houve escritores que criaram literatura para a Infância
à margem da sua própria obra como, por exemplo, Aquilino Ribeiro,
Ana de Castro Osório, Afonso Lopes Vieira - que é um caso especial -
e Jaime Cortesão.
Afinal quase todos os escritores têm a raiz da infância em quase
tudo o que escreveram.
Mas a assunção dos Direitos da Criança foi muito tardia…
aconteceu já eu tinha passado metade da minha vida.
Como seria possível uma Literatura para a Infância com estatuto de
Literatura, quando a criança não tinha estatuto como pessoa? Até em
certos ditos se nota isso ("Já a formiga tem catarro",
"De pequenino é que se torce o pepino").
Eu, quando comecei a ensinar não sabia nada, não sabia o que era a
Literatura para a Infância. Comecei a ter o espelho dos alunos e
comecei a perceber que aqueles textos que ia encontrando não estavam
ao nível dos alunos. Não é que não os entendessem mas não eram
para crianças.
Eu tive a voz dos alunos a dizer-me, a perguntar-me. Eu escrevi com
eles. Como professora andei de Herodes para Pilatos e em todas as
Províncias aprendi a ler a força da infância.
# Considera que
escritores que dirigem a sua obra para a Infância e Juventude têm
uma responsabilidade acrescida?
MRA: Todos
têm, mas a criança, a tal "infância desarmada" merece
mais. Embora tenha espírito crítico é muito influenciada pela
linguagem do afecto e às vezes está tão só.
Temos uma responsabilidade acrescida, sim. Não é que tenhamos mais
importância mas temos um interlocutor mais digno de respeito, mais
digno de cuidado.
# Matilde Rosa
Araújo tem obra para crianças e obra para adultos. A qual se sente
mais ligada?
MRA: À de
crianças. Eu, quando comecei não pensava no que ia acontecer, mas
foi como se tivesse embarcado numa viagem com as crianças.
Mas quando comecei tinha tanto medo... era nova... fui para a escola
D. Maria, na Calçada do Combro. Era uma escola velhíssima. Subi as
escadas, levava a bata, naquele tempo era obrigatório, e um professor
disse-me: "A menina para onde vai? O corredor das alunas é
ali!".
Vi as alunas e não sei o que se passou. Ajudaram-me tanto. Foi um
encontro. Gostei muito de ensinar.
# Como
escreve?
À mão? Na máquina de escrever? No computador? Sai tudo perfeito ou
emenda muito?
MRA:
Emendar, emendo.
Às vezes o escrever à máquina é que me dá a dimensão do erro.
Não escrevo em computador porque não tenho! Tenho uma amiga que me
diz: "Matilde! Até parece impossível!" Vou ver se arranjo
um.
Escrevo à mão… gosto de fazer letra. Gosto de desenhar a letra.
A letra tem uma beleza como a palavra tem uma música.
Um dia na escola da Calçada do Combro fiz uma sessão na Biblioteca.
Brincávamos com as palavras. Eu perguntava quais eram as palavras
mais bonitas. E uma aluna, magrinha, com umas olheiras até aqui,
voltou-se para mim e disse:
"A palavra mais linda é "vosselência""!
Não sei porque é que ela disse isso, penso que a mãe fazia limpezas
e ela via a mãe, inclinando-se respeitosamente, provavelmente
dirigindo-se assim às Senhoras para quem trabalhava, mas pensando
bem, até é uma palavra bonita, até tem uma música... "vo-sse-lên-cia".
Eu fui sempre muito atenta à música da palavra e ao desenho da
letra.
Uma vez até disse: "Quando me reformar vou para uma escola de
desenho". Gosto de desenhar a letra. Tinha uma letra muito
bonita.
Escrevo à mão e, depois, passo à máquina. Escrevo depressa à
máquina, sempre escrevi depressa.
# e os
manuscritos?
MRA: Deito
tudo fora. Perco tudo.
# Organizou
antologias de textos onde aparecem nomes como Ruy Belo ou Fernando
Pessoa. Que intenção presidiu à organização destas antologias?
MRA: A
criança é sensível ao que é belo. Há poesias de Fernando Pessoa e
de Ruy Belo que não são para crianças mas têm travos ou traves em
que as crianças se sentem bem. É como a música clássica, aqui sem
palavras, que pode ser entendida pela criança.
# Como recorda
o seu trabalho enquanto professora numa época em que o sistema
educativo era menos amigo dos jovens?
MRA: Eu
sabia os limites mas fui, essencialmente, distraída em relação aos
limites. Era qualquer coisa que estava em mim. Tive o sofrimento da
limitação mas era, mansamente, … roda livre. O afecto, o
entendimento com as crianças, a felicidade de ter colegas que me
deram e a quem dei muito, ajudou.
O meu tempo de professora foi um tempo feliz.
E eu fui, essencialmente, professora de português e, dum programa de
português, podemos voar.
# E como
vê o trabalho do professor, hoje, numa sociedade tão marcada pelo
consumo e pelo imediatismo?
MRA: Eu hoje vou a muitas escolas. Eu acho que, no fundo, continuam
crianças ansiosas de afectos. Mas a televisão, com todas as suas
imagens, desgasta muito a sensibilidade da criança.
A criança é alegre, gosta de brincar e gritar mas a criança tem
necessidade de silêncio.
#
Recorda-se das suas primeiras idas às escolas para falar aos alunos
dos seus livros? Como foi? Era frequente?
MRA:
Não era frequente. Julgavam que os escritores tinham todos morrido.
Uma vez o Manuel da Fonseca, conheceu o Manuel da Fonseca? Era uma
pessoa muito boa, muito amigo, mas de uma estatura muito pequena. Uma
vez o Manuel da Fonseca foi a uma escola. Um aluno perguntou:
"Senhor Director, onde está o escritor?" "É
este!" "Não pode ser, tão pequeno!"
Não havia praticamente visitas.
Quase não havia Bibliotecas… os livros estavam fechados. Os livros
eram páginas mortas.
Agora, em algumas Câmaras, já há Bibliotecas muito boas.
# Revelou
variadas vezes a preocupação de não infantilizar a infância. Como
vê a proliferação das actuais colecções para a infância e estes
fenómenos de sucesso massificado, como é o caso do Harry Potter? Ou
mesmo da obra de Walt Disney?
MRA:
Às vezes digo…"Dão o que a criança gosta". Mas eu
pergunto: "Dão outras oportunidades à criança?" Não é
que o Harry Potter não tenha valor mas…
# Diz-se,
por vezes, que é "uma figura tutelar da literatura
infanto-juvenil portuguesa".
MRA:
É a idade (risos)
# Tem
consciência de que, de alguma maneira, influenciou a carreira
literária de algum escritor português? Aconteceu o mesmo em
relação a si, quando se iniciou nas letras?
MRA:
Não sei. Gostei sempre muito que aparecessem colegas escrevendo… e
fico feliz. Mas "tutelar" não sei. Acho que todos os que
escrevemos vamos "tutelando" não é?
Não tenho ideia de espírito negativo ou palavra que me pudesse
intimidar quando comecei. Se calhar era muito distraída. Acho que
devo muito afecto e compreensão. Tive a felicidade de conhecer
pessoas tão cheias de afecto, de fraternidade.
Tive a felicidade de estar ligada a uma geração muito rica, muito
séria perante a vida e perante a escrita; cheia de verdade e de
espírito de missão perante os outros.
# Foi
por várias vezes premiada. De entre os prémios que lhe foram
atribuídos houve algum que tivesse tido particular importância para
si?
MRA:
Acho que todos tiveram embora todos me parecessem qualquer coisa
demais. Fui eu, podia ser outra.
#
Conheceu e privou com muitos escritores portugueses (para a infância
e juventude e escritores tout court). Considera que os escritores
contribuem efectivamente para a felicidade das pessoas? E das
crianças?
MRA:
Julgo, porque eu acho que ninguém ensina nada a ninguém. O que é
importante é o livro que está connosco, que se pode folhear, que tem
silêncio. É outra forma de música.
# Dos
actuais escritores portugueses infanto-juvenis qual (ou quais) pensa
que será recordado daqui a 100 anos?
MRA:
Acho que há tantos.
Eu sei lá a memória daqui a 100 anos? Deixarão ainda as crianças
ser crianças? Mas acredito também que o mundo há-de evoluir, há-se
ser melhor.
# Se lhe
oferecessem uma varinha mágica e quisesse usar os seus poderes para
favorecer a leitura entre as crianças e jovens, diga-nos os seus
três primeiros votos?
MRA: Uma varinha mágica (risos)!
Para ler... precisa de livros; para ler... precisa de um ambiente
lúdico e sério; para ler... precisa de estar com um livro como com
um amigo.
Que a criança seja educada num ambiente de afectos e não uma
pedagogia de recados.
Faria votos pela felicidade. Assim é capaz de chegar à leitura... e
chega mesmo!
Entrevista recolhida em 11 de Março de 2003
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