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Matilde Rosa Araújo

     
 

A influência das rimas infantis na poesia de Matilde Rosa Araújo publicada para crianças

Maria José Costa

 

Folheia-se o livro. Estalam as folhas e, num breve sussurro, os poemas soltam-se, alados. A luz inunda os olhos mas, se a fixarmos, dela emerge um rendilhado labor de nervuras: sigamo-las, de artéria em artéria, até ao capilar mais fino.

Em nossa defesa, uma só desculpa: sentidos são então outros, os poemas.

O universo poético de Matilde Rosa Araújo centra-se nos temas da infância e de uma comunhão com a natureza, que seria franciscana se dela não estivesse ausente a figura de deus. A ambos subjaz a sentida denúncia das injustiças sociais, próxima do neo-realismo 1.
Do ponto de vista formal, esta obra, em que predominam as repetições, a aliteração, as sinestesias e a personificação, estrutura-se em torno de dois grandes modelos:
- o de uma poética em que o ritmo e a rima têm uma presença ténue, concretizada ora em versos longos (Carta à minha amiga Maria - CT: 11), ora em versos muito curtos que, obrigando as palavras a uma exposição que lhes testa a consistência, o sumo e o perfume, aumentam a intensidade e o poder descritivo de um motivo ou cena banal (Há estrelas verdes - GB: 21);
- e, embora nem sempre respeitadas as regularidades convencionais, o do cancioneiro popular (tanto ao nível das formas - quadras, romances - como de certos motivos e modo de alternância no interior do poema: laranja/limão; noite/dia; sol/lua; cravo/rosa... ), até no que este tem em comum com a lírica medieval portuguesa (estruturas dialógicas e paralelísticas).
Assim sendo, se não é de estranhar que seja perceptível a influência das rimas infantis nos vários livros de poesia que publicou para crianças (O Livro da Tila, 1957 -LT; O Cantar da Tila, 1967 -CT; A Guitarra da Boneca, 1983 -GB; Mistérios, 1988 -M; As Fadas Verdes -FV e Problemas, 1994 -P), já surpreende o reduzido número de poemas em que incide (13) numa escritora cuja obra, tematicamente aglutinada em torno da infância, tanto evoca os brinquedos e as brincadeiras infantis.
Porém, as referências ao mundo dos contos infantis tradicionais contribuem para, por contiguidade, criar a ilusão de urna maior influência da Literatura Oral/Popular/Infantil. Basta uma leitura do índice de A Guitarra da Boneca para imediatamente encontrarmos a fórmula inicial "era uma vez", tão frequente nos poemas desta autora ("Era uma vez uma Boneca de Trapos" - GB10), por vezes abreviada para "era" ("Era um Boi" - GB20) ou a designação "história" ("História de uma Boneca com a Cabeça de Loiça" - GB9).
Do mesmo modo, ao iniciar um poema ("O Cavalo e a Estrela" - M20) com o provérbio "quem conta um conto, acrescenta um ponto", Matilde torna visível a entrada do conto no transmutador da linguagem. O conto toma-se poético no sentido próprio de "tema de poesia": atente-se, por exemplo, no motivo da metamorfose: boneca - menina - pomba, tanto mais quanto essa transformação é provocada pelo espetar de um alfinete ("História de uma Boneca" - M).
No entrecruzar da teia que Matilde vai tecendo com as palavras (a figura da aranha tecedeira faz parte da galeria dos animais evocados na sua poética), como é que, a nível de temas e formas, emerge o eco das rimas infantis tradicionais?
Só no livro "A Guitarra e a Boneca" podemos encontrar alusões a três rimas infantis: uma canção ("Oliveirinha da Serra" GB25) e dois jogos. O da Sola Sapata, a que toma de empréstimo os versos "os cavalos a correr / as meninas a aprender" que, com ligeiras variações servem de refrão ao poema "Comboiozinho" (GB27) e ao jogo Mão Morta: "mão morta, mão morta,/ vai bater àquela porta" ("A Minha Casa" GB30).
As canções de roda (rimas em jogos de crianças em idade escolar) parecem ter em "Dança da Rosa" uma influência difusa: não referência a nenhuma em especial, antes se evoca a memória destas brincadeiras, ainda que com a métrica que muitas delas utilizam. Com efeito, o pôr algo no chão, o escolher um par na roda, a menina que está no meio constituem outros tantos motivos que surgem nos textos, mas ainda com maior frequência nas situações do jogo que acompanham.
"Primavera" contém uma transparente glosa de uma prática divinatória popular que foi recolhida como infantil: "ó cuco da banda de além do mar / Quantos anos me dás tu / Para me eu casar"2. Quantas vezes o cuco cantasse, tantos anos faltariam para o casamento.
"Loas à Chuva e ao Vento" (LT25) apresenta analogia de funções com os ensalmos já que o canto, o "triste lamento" que inicia o poema parece ter tido a força de afastar o vento e a chuva uma vez que termina: "e os pássaros cantam / e as nuvens levantam!". "Problemas", quer pela sua temática (o tema do animal-noivo), quer pela sua construção em diálogo, tem raízes nas lengalengas de casamentos entre animais, variedade tão persistente nas rimas infantis.
Sinal dos tempos, porém, o busílis da questão desloca-se do encontrar noivo - padrinhos - comida - enxoval para equacionar o problema da habitação: "- Aquele buraquinho ali... / dizia encantada. / Mas o rato disse logo: / - Oh! Isso não chega a nada!" E o poema segue com finura os meandros psicológicos da conversa rimada em que os dois ratinhos debatem o assunto.
Não resisto aqui a, entre parêntesis, salientar a atitude do elemento feminino que, sob uma capa inicial de aparente imediatismo irrefletido, vem afinal a demonstrar ter feito a análise mais realista das várias coordenadas da situação, assim como o "happy end", que vem introduzir a dúvida na tradicional fórmula de finalizar uma história: "Dizem que foram felizes / mas eu não sei se é verdade."
Na "Balada das 20 Meninas Friorentas", a cadência de lengalenga forja-se através de uma estrutura repetitiva que cria a expectativa de um desenvolvimento numérico progressivo, aumentando o impacto do abrupto e condensado final, conclusão tão inapelável quanto a Tranglo-Manglo, "lá voaram, uma a uma (...) e não voltou mais nenhuma".
"Figos Verdes" lembra os encadeamentos causais característicos de algumas lengalengas cumulativas. Com efeito cão-gato-pássaro-árvore são personagens frequentes neste tipo de textos, embora não nesta sequência. A alongá-la surge a repetição introduzida pelo necessário teste de veracidade das afirmações ("o quê? Julgam que minto? / Perguntem ao cão..."), o que, de algum modo, recorda as afirmações jocosas da veracidade da história, presentes em algumas fórmulas finais dos contos populares ("A certidão está em Tondela / Quem quiser vá lá por ela." 3
A canção do berço é, porém, o paradigma mais frequente (6 poemas) e o que é verdadeiramente glosado.
À excepção de "História do Senhor Mar", em que o acalanto está inserido num apontamento de narrativa, todos os outros textos (alguns identificáveis desde o título: "canção de embalar") apresentam marcas que as assimilam às canções de berço tradicionais: aludem ao adormecer através de vocábulos dessa área semântica e dos ritmos correspondentes que se encontram implícitos na métrica destes poemas.
Pode-se mesmo encontrar uma variedade de ritmos implícitos na métrica.
No poema supracitado, por exemplo, o verso tetrassílabo e trissílabo estão ligadas por uma rima interna em "om", som grave, que propicia o mergulhar no sono, próximo do característico ó-ó. De resto, tal como em "Menino", o ritmo de embalar é criado pela repetição de versos de conteúdo quase minimal.
Os outros poemas deste grupo estão escritos em redondilha: menor (em pentassílabos), no caso de "Canção para Embalar um Menino" e maior (verso de sete sílabas) em "Canção de Embalar Bonequinhas Pobres", "Burrinho de Seda" e "Boa-noite, Passarinho". Destas métricas, já usadas pelos poetas portugueses na Idade Média (cantigas de amor e de amigo), a redondilha maior, que se manteve ao longo do tempo na poesia popular, é a predominante (embora não a única) nas canções de berço.
Em "Burrinho de Seda", todas as quadras começam com a onomatopeia "toc-toc" que, se evoca o som dos passos do burrinho, não deixa de se assimilar funcionalmente ao "cala, caia"/"dorme, dorme" que inicia, com alguma frequência, as canções de berço tradicionais.
As características apresentadas bastariam por si só para justificar a influência das canções de berço nestes poemas. Porém, do ponto de vista temático, essas semelhanças são ainda maiores.
Leite de Vasconcelos, no estudo intitulado As Canções de Berço segundo a tradição popular portuguesa 4, aponta como um dos conteúdos vulgares nestes textos a expressão do prazer que a mãe sente "por lhe estar nos braços a metade do seu ser" 5. Ora "Canção de Embalar Bonequinhas Pobres" sugere exactamente esta ideia, sublinhada pelo embevecido e esmiuçado enumerar de elementos do corpo da criança. A reforçar, o menino é de oiro, fórmula frequente (nas Beiras e no Alentejo sobretudo: "O meu menino é de oiro/É de oiro mui fininho..." 6).
O passarito, personagem frequente neste tipo de textos, figura no citado poema e em "Boa-noite, Passarinho". Aqui, surge identificando-se com a criança, o que também acontece, embora raramente, nas rimas infantis: "O meu menino é um anjo/0 teu é um passarinho" 7. Mais usual é aparecer como elemento ruidoso que urge portanto afastar para que o menino possa dormir sossegado; contexto em que alterna com o papão. Ora é justamente esta a personagem a que anda associada a rima: "telhado/descansado" que ocorre na última quadra de "Boa-noite, Passarinho".
Porém, ao contrário do que seria de esperar já que muitos elementos de religiosidade cristã se costumam associar a alguns dos versos e temas aqui glosados, às canções de embalar de Matilde são alheias as alusões ao menino Jesus, o que matiza o "franciscanismo" que José António Gomes assinala na poética desta escritora.
Quem é que ela tão docemente acalenta? Menina ou menino (seja ele branco ou negro), um passarinho ou bonecos (a boneca de trapos, o burrinho de seda) - as personagens características deste universo: a criança actual, a vivida ou a sonhada, agregadas assim, em torno deste elemento aglutinador, as três infâncias em torno das quais ele gravita. Porém, adormecer outrem não será uma forma metonímica de se adormecer a si própria? "Burrinho de Seda" parece indiciar e legitimar esta leitura pela passagem do eu-sujeito da enunciação a destinatário da canção de embalar:

"... ... ...
se parares à minha porta
se tu não podes parar
tapo-te com o meu lençol
sou capaz de adormecer
como queres que eu me deite?
vamos sonhar com o sol" - M25/26

A esta luz, este grupo de poemas prenuncia e integra as isotopias do sono e do silêncio, tão recorrentes no livro As Fadas Verdes, cujos textos, curiosamente, se subtraem à influência das rimas infantis.
Talvez venha a propósito lembrar que Paul Zumthor considerou a canção de berço próxima do universo das canções de mulher, embora lhes reconheça as características linguísticas e rítmicas das rimas infantis.
Voz de mãe por excelência, a canção de embalar tem também o poder órfico de fazer ouvir a voz da mãe, que perpassa, diluindo-se progressivamente na filha que a evoca.
Dos versos "Mãe, as flores adormecem/ quando se pões o sol! //Filha, para as adormecer/ canta o rouxinol..." com que inicia "O Livro da Tila" àqueles com que encerra "As Fadas Verdes": "... Porque dormes minha Mãe / e me embalas a sonhar?"

Notas:
1. Cf. GOMES, José António (1993), A Poesia na Literatura para a Infância, Porto, Asa, 126 p.
2. VASCONCELOS, José Leite de (1986) 1882, Tradições Populares de Portugal, 2ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p. 182
3. VASCONCELOS, José Leite de (1975), Cancioneiro Popular Português, Coimbra, por ordem da Universidade, p. 95
4. "Revista Lusitana", vol. X, nº 1-2, Lisboa, 87 p.
5. Idem, p. 19.
6. VASCONCELOS, José Leite de (1975), Cancioneiro Popular Português, Coimbra, por ordem da Universidade, p 42.
7. Idem, p. 43.

(Comunicação apresentada no 3º Colóquio "A Literatura Infanto-Juvenil e o Ensino", organizado pela Editora Civilização, publicado em Associação de Professores de Português, escritores #na_tua_escola, com a amável autorização da autora)

 
 

 

 
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