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#na_tua_escola: Quando começou a escrever?
Natércia Rocha: Comecei com uma carta de amor. Tinha 13 anos e
havia no meu Liceu um rapaz louro, de olhos azuis. Mas ele não me
ligava, talvez por eu ter óculos...
Descobri que ele escrevia no "Faísca", que era um jornal
para jovens. E então escrevi uma história para o jornal onde ele
escrevia. Preocupei-me em escrever uma história em que aparecesse o
nome dele, uma história que não ficasse feia, está claro, mas o que
importava era que aparecesse o nome dele. Depois comecei a esquecer-me
do rapaz e passei a preocupar-me só em que a história ficasse bem
escrita.
# Escreveu, de parceria com Carlos Correia e Maria Alberta
Menéres, 16 títulos da colecção "1001 detectives.
Como é trabalhar em equipa? Tudo é feito por todos? Dividiam
tarefas?
NR: Têm de ser muito amigos. Era o nosso caso. A colecção foi
já escrita em computador. Um dos autores (o Carlos) era louco por
computadores, outro estava a iniciar-se (eu) e a outra (a Maria
Alberta) odeia. De maneira que o Carlos estava no teclado, eu falava e
a Maria Alberta ia criticando. Riamo-nos muito, dávamos grandes
gargalhadas. Íamos fazendo uma crítica, já perante o texto.
Trabalhávamos até às 4 ou 5 horas da manhã... Ainda somos muito
amigos mas cada um seguiu o seu rumo: o Carlos é professor na
Universidade, a Maria Alberta está cheia de trabalho e eu fiz as
minhas coisas.
# A propósito: o título "1001 detectives" tem a ver
com "Emílio e os detectives"? (eMILIUSDETECTIVES).
NR: Não. Tem só a ver com 1001. Mil e uma maneiras de fazer
qualquer coisa... Se eu escrevesse um livro de receitas de bacalhau
seria "As 100 maneiras de cozinhar bacalhau". Assim, foram
os 1001 detectives.
# Tanta televisão, tanta telenovela e agora a Internet e os
telemóveis... acha que são factores positivos ou negativos para a
criança e para a leitura?
NR: Eu acho que tem aspectos positivos e aspectos negativos. A Tv
lixo também tem a sua função, que é a de acompanhar as pessoas
sós. Tv e telemóveis têm influência no uso de abreviaturas, na
linguagem sincopada, que omite preposições e conjunções. Em termos
de linguagem, a Tv seria boa se as pessoas fizessem bom uso dela; o
mau uso que se faz é que é mau.
Mas mesmo assim há pessoas que vêem Tv e escrevem em computador ou
telemóvel e que se não fosse assim não leriam nem escreveriam.
# A literatura infanto-juvenil portuguesa está de saúde ou
causa-lhe preocupação?
NR: Eu acho que não está florescente mas está melhor do que já
esteve.
Antes da ditadura de Salazar havia belíssimos escritores: Aquilino,
Sérgio, Ana de Castro Osório. Jornais como "O Senhor
Doutor", o "ABC-zinho", o "Papagaio", o
"Notícias miudinho". Com a ditadura - os objectivos
passaram a ser diferentes, era preciso que os meninos fossem
obedientes e não se importassem de ser pobrezinhos - e com a falta de
papel que a guerra trouxe, a situação da literatura infantil piorou.
Imperava a mediocridade.
Mesmo assim nesse período podemos citar Alves Redol e a
"História da Sementinha" e Olavo d'Eça Leal com "Iratan
e Iracema, Os Meninos mais Malcriados do Mundo"
Até um pouco antes do 25 de Abril houve um marasmo. Mesmo assim já
no final desse período começaram a aparecer nomes novos válidos.
Por exemplo Luísa Ducla Soares a quem foi atribuído um prémio
literário que recusou receber.
Depois do 25 de Abril a Literatura Infantil floresceu: desapareceram
tabus como o sexo, o dinheiro, os divórcios... Surgiram prémios de
editoras e Encontros promovidos por instituições como a Gulbenkian,
etc.
Surgiram nomes como o de Alice Vieira, Álvaro Magalhães e outros.
Já não era preciso ensinar coisas e impingir ideias.
Pode dizer-se que a Literatura Infantil está de boa saúde porque os
professores estão mais exigentes e as crianças mais informadas.
Agora há uma nova geração. Agora há bons autores, mais do que era
costume noutros tempos, e também há autores essencialmente
comerciais. Mas persistem os autores que escrevem bem.
# O facto de ser simultaneamente teórica e praticante de
literatura infanto-juvenil ajuda-a ou dificulta a percepção que tem
da sua obra ficcional?
NR: Quando uma pessoa está a escrever não está a pensar na
parte teórica. Sai das tripas.
Eu, por exemplo, gosto muito de animais. Escrevi um livro sobre
cegonhas. Saiu das tripas e depois descobriram que tinha uma mensagem
ecológica.
Uma amiga minha chamou-me a atenção para a mensagem que os meus
livros têm e eu não me tinha apercebido. É uma emanação do que
vai cá dentro.
# Quando tinha a idade dos seus leitores lia muito? Que livros
lia?
NR: Eu era filha única e não se usava as meninas virem para a
rua. Em minha casa havia livros. Eram uma presença constante. Aos 9
anos lia o Júlio Dinis. A minha distracção estava nos livros. E
acho que, por isso, comecei a escrever bem. Os meus professores
diziam: "Ah! Tu vais ser escritora!" Mas eu não achava isso
realizável.
Henrique Samorano fascinou-me. Ouvia os textos de José Gomes
Ferreira, as "Aventuras de João sem Medo", publicados no
"O Senhor Doutor" e passei logo para o Júlio Dinis e o Eça
de Queirós.
Detestei o Camilo. Passei para os livros em inglês e adquiri o humor
saxónico.
# Que conselho daria a um jovem que quer começar a escrever? Que
temas? Que género literário? Que editores?
NR: Não daria conselhos. Conversaria. Conselhos dão esses livros
da Enid Blyton.
# Que livros, da literatura nacional ou universal indicaria a um
jovem leitor português?
NR: Uma longa lista. Começaria talvez pelo Aquilino (O Romance da
Raposa), depois o Alves Redol (História de uma Sementinha) e a
Matilde (O Palhaço Verde). O Palhaço Verde que dá para ser
trabalhado por todas as disciplinas.
Há o Sidónio Muralha (Bichos, bichinhos e bicharocos), as Lendas do
Mar de José Jorge Letria e os livros da Alice Vieira, que representam
o abrir das portas a assuntos tabu.
# Há algum livro que desejasse ter escrito e nunca escreveu?
Porquê?
NR: "Iratan, Iracema, os Meninos mais Malcriados do Mundo"
de Olavo d'Eça Leal, mas é difícil assumir os livros dos outros
porque não saíram das nossas tripas.
Eu gostava de ter tido o tempo que Alice Vieira teve para amadurecer
mas eu não seria capaz de escrever aqueles livros.
Entrevista recolhida em 8 de Janeiro de 2003
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