António de Andrade
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A Última Fronteira
Em 1624, um jesuíta português surpreendeu o mundo ao revelar a
existência dos reinos do Tibete. Foi o primeiro europeu a entrar nas
terras do Dalai Lama, chegando onde nenhum outro tinha chegado antes.
Foi um milagre ter voltado vivo.
Texto de Rosário Sá Coutinho
In "National Geographic", Maio 2002
Poucos conhecem a aventura deste beirão de
Oleiros que, nos idos de seiscentos, partiu de Agra, no Norte da Índia,
e caminhou até Tsaparang, em pleno Tibete Central, onde estabeleceu uma
missão. Aos alpinistas modernos, as condições da viagem do padre
António de Andrade pelas montanhas do Himalaia não deixariam de causar
arrepios. Levando apenas "um cambolim pera se cobrir, e um alforge
com algua cousa pera comer", Andrade subiu aos píncaros mais altos
do globo e atravessou a enorme parede do Himalaia pela portela de Mana,
a mais de cinco mil metros de altitude. Pelo caminho, descobriu uma das
nascentes principais do rio Ganges e passou tormentos indescritíveis.
A notícia da descoberta do Tibete, publicada em Lisboa em 1626 e
recentemente reproduzida numa obra de Hugues Didier, foi traduzida em
várias línguas e causou grande sensação em toda a Europa. Uma vez
mais, julgava-se estar perante o lendário reino do Grão Cathayo, que
Marco Polo situara algures na Ásia e onde, supostamente, existiriam
cristãos. Desde a Idade Média que circulavam na Europa notícias vagas
dessas "cristandades perdidas"- a localização desses reinos
deslocava-se nos mapas à medida que se exploravam novas terras, mas, em
meados do XVII, uma boa parte do mundo estava ainda por descobrir.
A 30 de Março de 1624, o padre António de Andrade partiu de Agra para
acompanhar Jahangir, imperador mongol, a Caxemira. Em Deli, ao saber que
uma caravana de peregrinos partia para um afamado templo, a mês e meio
de caminho para nordeste, o jesuíta decidiu segui-los, ciente de que
encontraria comunidades cristãs - ou que já o teriam sido em tempos -
para além dos Himalaias.
Andrade, o irmão Manuel Marques e dois criados deixaram a cidade
disfarçados de muçulmanos, "com toucas e cabaias". Seguindo
pelo rio Ganges, iniciaram a subida das primeiras montanhas do Himalaia.
São elas as mais fragosas e altas, que parece haver no mundo. (...)
Basta saber que depois de andar dois dias desde pela manhã até noite,
não acabamos de passar ua." Nalguns trilhos só era possível
caminhar pé ante pé. "São pela maior parte aquelas serras tão
talhadas a pique, como se por arte estivessem a plumo', correndo-lhe lá
no profundo como em um abismo o rio Ganges, que por ser mui caudaloso e
se despenhar com notável estrondo por grande penedia entre serras tão
juntas acrescenta com seu eco o pavor que a estreiteza do caminho causa
a quem vai passando." Apesar da dureza do percurso, havia entre os
peregrinos "muitos de crescida idade, já com os pés na cova, e
muito inferiores a nós nas forças e na idade, que nos serviam de boa
confusão".
Em Srinagar, capital da província de Garhwal, "nos fizeram grandes
exames de quem nós éramos, de nossa pretensão". Alguns dias e
muitas perguntas depois continuaram, passando o Ganges várias vezes,
"por cima da neve que o cobria por grandes tratos, indo ele fazendo
por baixo seu curso com grande estrondo", e, "ao cabo de mês
e meio chegamos ao pagode Badrid", ou Badrinath, a 3.170 metros de
altitude. Andrade notou as fontes de água quente que brotavam no local,
bem como os costumes daquele povo da montanha.
A portela de Mana, a 5.604 metros de altitude, só permite a passagem
durante dois meses do ano. Impaciente, Andrade fez uma primeira
tentativa falhada que quase lhe custou a vida: "Nos pés, mãos e
rosto, não tínhamos sentimento ( ... ) Aconteceu-me pegando em não
sei quê, cair-me um bom pedaço do dedo, sem eu dar fé disso, nem
sentir ferida, se não fora o muito sangue que dela corria. Os pés
foram apodrecendo de maneira, que de mui inchados, no-los queimavam
depois com brasas vivas, (...) e com mui pouco sentimento
nosso."Durante o intento, descobriu uma das principais nascentes do
Ganges, um tanque encravado na encosta do monte Kamet. Para lá da
portela de Mana estendia-se o vasto planalto do Tibete, mas era
impossível prosseguir com a vista dos olhos quase toda perdida (....),
sem poder rezar o oficio divino, nem ainda conhecer uma só letra do
breviário". Viu-se então obrigado a voltar para trás e a tentar
novamente semanas mais tarde. Desta vez, mandaram avisar o rei do Guge,
um dos reinos do Tibete, da sua chegada, e este enviou-lhes guias e
cavalos para facilitar o último troço do caminho. No início de Agosto
de 1624, o missionário entrava na cidade real de Tsaparang, na margem
do rio Sutlej, e a população saía à rua para acolher aquela
"gente muito estranha e nunca vista por aquelas terras". O rei
do Guge recebeu os missionários com todas as honras. Espantava-o a fé
inabalável deste homem que sofrera as piores agruras para lhe trazer a
lei do seu deus. Andrade permaneceu quase um mês no Tibete e prometeu
voltar no ano seguinte. Para trás deixou urna imagem de Nossa Senhora e
crucifixos que a família real passou a usar ao peito.
De regresso a Agra, Andrade apressou-se a escrever ao provincial da
Companhia, em Goa, informando-o da sua viagem. O entusiasmo era
notório. O rei do Tibete mostrara-se favorável aos missionários e ao
cristianismo, e prometia até receber o baptismo. O ambiente era
propício ao estabelecimento de uma missão, e Andrade partiu nos
princípios de junho de 1625 com o padre Gonçalo de Souza, de
Matosinhos, e o irmão Manuel. Dois meses e meio depois chegam a
Tsaparang e Andrade volta a escrever dando conta da nova missão. Fala
dos reinos do Tibete - Guge, onde se encontram, Ladak e Rudok, para
norte, e Utsang, para leste -, referindo que Katai não é o Grão
Cathayo procurado pelos navegadores, mas uma cidade próxima do Sul da
China. Relata a vida, a religião, as rotas comerciais, os costumes, a
morfologia, a vegetação, o clima e as várias povoações das regiões
dos Himalaias, fornecendo inúmeras informações sobre paragens até
então desconhecidas.
As semelhanças entre alguns aspectos da religião dos lamas e da
religião cristã confunde o missionário, que vê na primeira uma forma
deturpada da segunda. Andrade envolve-se em acesas discussões
teológicas com os lamas mas, obrigados a comunicar em três línguas
diferentes e dada a natureza dos assuntos discutidos, o entendimento era
praticamente impossível. Conclui que os tibetanos não são cristãos,
mas povos "mui diferentes de todos aos de que tivemos notícias
até agora".
A 12 de Abril de 1626, dia de Páscoa, foi colocada a primeira pedra da
igreja dedicada à Virgem da Esperança. No início do Verão chegavam
reforços à missão de Tsaparang. Desta vez, os missionários
percorreram um caminho mais transitável a partir de Nova Deli, seguindo
para norte e depois sempre ao longo do rio Sutlej para noroeste. No
Natal desse ano a família real assistiu à missa na igreja, e visitou o
presépio com grande deferência.
Uma terceira carta escrita em Setembro de 1627 dava conta de três
padres em Tsaparang, ocupados no estudo da língua. "A nossa igreja
está de todo acabada, e tão graciosa e aprazível que não há mais
que desejar." O padre António Pereira chegava nesse ano para
estabelecer uma missão em Rudok, 200km a norte de Tsaparang, e, até
1629, outros missionários passariam por aquela missão. Em finais de
1629, Andrade regressava a Goa para ocupar o cargo de provincial da
Companhia. Morreu envenenado a 19 de Março de 1634.
Passariam quase 200 anos até os oficiais ingleses Webb e Raper
percorrerem o mesmo caminho de Andrade, numa expedição às nascentes
do Ganges, em 1807. A António de Andrade, missionário, explorador e
diplomata português, cabe a glória de ter sido o primeiro europeu a
subir ao tecto do mundo e a desbravar as fronteiras do que era até
então conhecido. Um contributo indiscutível para o conhecimento do
planeta e um justo lugar entre os heróis dos Descobrimentos.
O projecto "um tema
#na_tua_escola" agradece à National Geographic a amável
autorização para publicar este artigo.
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