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#na_tua_escola

António Torrado 

 

Ainda não estão contentes?

Esta   história   passou-se   numa   aldeia   de   macacos,   dessas   que há   nos   Jardins   Zoológicos,   suponho   que   conhecem   o   género.   Os   macacos,   que   lá   vivem,   saltam   de   casa   em   casa,   zaragateiam   uns   com   os   outros,   fazem   momices,   coçam   o   piolhinho,   enfim   entretêm-se.

Entretidos   que   estão   nem   ligam   às   pessoas,   que   os   observam, tão   divertidas   como   se   estivessem no   Palácio dos Espelhos,   daqueles   deformantes,   não   sei   se   me   faço   entender...

Foi   um   desses   visitantes   do   Jardim   que   me   contou   a   história   das   bananas,   história   bem   comprida   e   complicada,   mas   que   eu   farei   os   possíveis   por   resumir.   Aí   vai,   sem   mais   comentários   nem   delongas.

Quem mais mandava na aldeia não morava nela. Era o tratador, que todos os dias trazia, num grande cesto, a ração de bananas para a macacada. Recebido sempre de braços abertos, o tratador era, como se imagina, muito popular, na aldeia.
Estava, desde há muito, decidido que a cada macaco calhava, por dia, uma quantidade certa de bananas. Dez, nem mais nem menos!
Dava gosto vê-los, em bicha certinha e ajuizada, para receberem, logo de manhã, a parte que lhes cabia do muito peso de bananas, que o tratador carregava, no cesto.
- Dez para ti... Dez para ti... Dez para ti... - distribuía o tratador.
Mas os macacos, a certa altura - e aqui é que começa, propriamente, a nossa história - puseram-se a protestar que dez bananas a cada um não chegavam para vencer a fome.
- Ai não chegam? - resmungou o tratador. - Esperem que já vos arranjo! Pois, a partir de amanhã, vão passar a ter duas refeições.

E assim aconteceu. Ao almoço, o tratador trazia cinco bananas para cada macaco. E, à tardinha, para o jantar, trazia outras cinco bananas.
A macacada ficou mais satisfeita.
Mas, passado tempo, as contas da barriga continuaram a não bater certo e os macacos exigiram ao tratador aumento de ração.
- Ai querem mais? - resmungou o tratador. - Não vos chega o que têm? Pronto: vão ganhar uma nova refeição: a merenda. Passam a comer quatro bananas ao almoço, duas bananas à merenda e quatro bananas ao jantar.
A macacaria em peso deu vivas e bateu palmas à generosidade do tratador. Três refeições de bananas? Que rica vida!
Mas, mesmo assim, tempos depois, a barriga dos macacos protestava que era pouco.
- Ainda não estão contentes? - resmungou o tratador. Nesse caso, só vejo urna solução: começar o dia com um belo pequeno-almoço de uma banana. Depois, ao almoço, comem quatro bananas; ao lanche, duas bananas; e ao jantar, três bananas. Que acham?

Os macacos estavam encantados. Aquele tratador era um amigo fixe, o grande protector da macacada.
Só a barriga dos macacos não se conformava com o sistema. Porque seria?
E houve novos protestos lá na aldeia, mais exigências, manifestações de desagrado...
- Não sei, francamente, que mais hei-de inventar para vos fazer felizes - discursou o tratador. - Vendo bem, temos de inaugurar, cá na aldeia, o regime das ceias de banana, para ver se pega a moda.
E assim foi. O tratador fartava-se de caminhar todo o dia para a aldeia dos macacos. De manhãzinha, trazia-lhes uma banana. Ao almoço, três bananas. À merenda, duas bananas. Ao jantar, três bananas. Finalmente, à ceia, uma banana.
Será que os macacos ainda não estão contentes? Parece que não. Eles nem sabem bem porquê, mas sentem na barriga que, apesar da boa vontade do tratador e de tantas refeições por dia, as bananas não lhes chegam para a fome. Esquisito, não acham?
Entretanto, o tratador continua a fazer contas. Ele tem mais soluções de reserva. Até, segundo parece, já foi comprar uma faca de cortar bananas, prevendo novas possibilidades...

 

 

 "Ainda não estão contentes?", uma história de António Torrado
in "Conto contigo", da Editora Civilização.

 

 

Imagem de home     Associação de Professores de Português #na_tua_escola (publicado em 10/12/2002, actualizado em 10/12/2002)
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