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Associação de Professores de Português
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Relatório Preliminar Documento discutido em 2001 |
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"Português 2002" é um projecto de investigação criado na Associação de Professores de Português, em Janeiro de 1999, integrando uma equipa de oito elementos: Aldina Silveira Lobo (coordenadora) Ana Isabel Araújo, Dulcinea Gil, Isabel Assunção, Lúcia Soares, Manuela Ferreira, Maria José Ferraz e Paulo Feytor-Pinto.
Funcionaram como parceiros do projecto sete instituições do ensino superior, representadas através de especialistas seus: Escola Superior de Educação de Setúbal, José Víctor Adragão; Universidade de Aveiro, Departamento de Línguas e Culturas, Rosa Lídia Coimbra; Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Educação, Inês Sim-Sim; Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Inês Duarte; Universidade do Minho, Instituto de Educação e Psicologia, Fátima Sequeira; Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Fernanda Irene Fonseca posteriormente substituída por Isabel Margarida Duarte; Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Secção de Letras, José Esteves Rei. O "Português 2002" contou com o apoio do Ministério da Educação (ME), através de protocolos firmados com os Departamentos de Educação Básica (DEB) e do Ensino Secundário (DES) e a Escola Superior de Educação de Lisboa e através do Programa SIQE II, do Instituto de Inovação Educacional (IIE).
ÍNDICE
O PROFESSOR E O ENSINO E APRENDIZAGEM DO PORTUGUÊS CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANEXOS
(EXCERTO DO DOCUMENTO) pp. 26 - 39
Um perfil de professor
…integrado em grupos
…implicado no seu processo de (auto-)formação
…capaz de dialogar
…preocupado com exigências de respeito e rigor na nova deontologia, o professor acolhe cada aluno com a sua especificidade própria, é sensível à sua história e à sua dinâmica única e, deste encontro, planeia a resposta pedagógica adequada. Ninguém pode ser esquecido, ninguém se pode perder para a escolaridade. Obviamente que se não exige uma individualização curricular plena. Tal seria impossível e até prejudicial. Mas esta percepção das necessidades de cada aluno requer agrupamentos distintos, programas especiais para alguns, tratamento individualizado para uns poucos. (p.82)O professor de Português Embora de uma forma sucinta, procurámos aqui apontar algumas das características consideradas fundamentais para o esboço de um perfil do "professor novo", das características comuns a qualquer docente. É tempo agora de considerar mais atentamente a especificidade do professor de Português. Não pretendemos com isto dizer que tais características são exclusivas do professor de Português, mas é sobre este que estamos aqui a reflectir. Não pretendemos fazer crer que se trata de pontos estanques nem sequenciais, pois, na realidade, interagem em concomitância. Tal especificidade prende-se com o facto de ser professor de uma disciplina que conta já com aquisições realizadas no meio em que a maioria dos aprendentes nasceu e viveu. A escola deve proporcionar-lhes o desenvolvimento da competência comunicativa e instrumental da língua. Compete-lhe fazer com que sejam capazes de exprimir o que pensam, o que sentem, o que sabem, adequando o discurso ao contexto, aprendendo a usar a língua como meio de adquirir conhecimento, compreendendo-a na sua dupla especificidade de instrumento de comunicação e de interpretação do real. Importa que os nossos alunos compreendam que o domínio correcto da língua é um factor decisivo para a sua valorização pessoal, uma barreira contra o isolamento e exclusão sociais, um instrumento de poder e de afirmação perante os outros. Assim, o bom domínio da língua facilita o acesso a novas aprendizagens já que "a educação linguística é o alicerce e o factor sinergético da aprendizagem de outras disciplinas e de outros saberes" (Silva, 1998, p.156). É, pois, fácil perceber que o sucesso de toda a arquitectura do ensino assenta, em grande parte, no sucesso do ensino da língua. Portanto, cabe também ao professor de Português mostrar aos seus alunos que saber ouvir, ler, falar e escrever bem é tão importante como dominar outros saberes. E não há forma mais segura de o demonstrar que possuir ele próprio esse domínio, de preferência com à-vontade e elegância.
1. Bom conhecedor e bom utilizador da sua língua
2. Estimulador das competências comunicativas ao aprendente terá de se dar a possibilidade de expressar as suas ideias de forma articulada (…) de maneira a que este sinta que é nas peças que constituem a linguagem que ele pode ir buscar aquilo de que necessita para ter sucesso no modo como se exprime, na forma como interpreta e compreende a linguagem escrita ou oral. Pinto (1999, p.24)É importante que o professor faça das suas aulas um espaço de descoberta para os alunos, que lhes saiba despertar a curiosidade pelas palavras, pelo conhecimento, pela vida. Que lhes transmita segurança para que não tenham medo de errar quando falam ou escrevem. Que lhes prove todos os dias que a língua portuguesa é também a pátria de todos nós. Para isso é preciso que na aula de Português se conviva com uma grande diversidade de tipologias textuais. Que se introduza a dificuldade como forma de despertar nos aprendentes a emoção da incerteza e do desconhecido. Por um lado, revela-se fundamental o trabalho da língua ao nível da escrita. É absolutamente necessário que o professor arranje espaço nos cinquenta (e com mais premência ainda nos futuros noventa) minutos de aula ou na articulação com o Estudo do Meio e da Matemática para que os alunos leiam e redijam textos curtos e longos, textos com restrições, textos criativos, informativos, recontos, textos regulados por técnicas de contracção e de expansão da informação. Este trabalho não pode estar dependente do voluntariado dos trabalhos de casa e das exigências dos exames; tem de ser feito em aula, do 1º ao 12º ano. Por outro lado, torna-se também imperioso rever profundamente o papel reservado à oralidade. Todos reconhecemos a sua importância nos mais variados domínios da vida, nomeadamente no livre exercício dos direitos de participação e todos nos apercebemos das múltiplas dificuldades de comunicação. Tais evidências obrigam-nos a repensar as práticas reservadas à expressão oral, não as restringindo a uma oralidade espontânea. Importa, também, promover a exposição de ideias, a organização de debates, as recolhas do património oral, o treino da audição, a capacidade de compreender uma mensagem radiofónica ou televisiva por períodos mais ou menos longos, indo para além da "cultura zapping" em que estamos imersos. Além disso, de acordo com Pinto (1999), o bom domínio da expressão oral prepara os alunos para um melhor domínio do registo escrito. As Competências Essenciais do Português do DEB (1999), definidas a partir de Sim-Sim, Duarte e Ferraz (1997), apresentam uma útil lista de actividades passíveis de serem desenvolvidas em aula neste âmbito. Contudo, o desempenho destas quatro competências (da escrita e da oralidade, ao nível da recepção e da produção) será tanto mais eficaz quanto maior for o conhecimento explícito que cada um tiver quer do funcionamento da língua quer do modo como se recolhe, selecciona e organiza a informação proveniente das mais diversas fontes. É esta análise que permite desenvolver com segurança e espírito crítico as quatro competências referidas. São, por isso, técnicas que terão de ser ensinadas também pelo professor de Português.
3. Praticante de metodologias activas e diversificadas O desafio que se coloca aos professores tem a ver com o recurso a formas diversificadas de ensino e de avaliação, no que respeita a métodos e instrumentos. Cada aluno é uma pessoa com velocidade e forma próprias de apreensão do mundo. De acordo com a gestão mental de Antoine de la Garanderie (1982/1991) umas pessoas compreendem mais facilmente evocações visuais, enquanto que outras se atêm sobretudo às auditivas, daí que seja vantajoso diversificar abordagens para que todos tenham maior oportunidade de acesso e de sucesso. (Lobo, 1998, pp.94, 95)Porém, para que se possam concretizar algumas destas necessidades, é preciso que as escolas estejam dotadas de centros de documentação e de laboratórios multimédia, onde os alunos possam multiplicar e diversificar as suas experiências linguísticas, não apenas como receptores mas também como produtores. Assim, tanto fora como na própria sala, individualmente, em pares e em grupo, partirão para a descoberta e prática da língua, abrindo a aula de Português a uma multiplicidade de tipologias textuais até aqui muitas vezes ausente do universo escolar.
4. Regulador do processo ensino-aprendizagem
5. Gestor da(s) diversidade(s) e da(s) diferença(s)
6. Participante em dinâmicas de trabalhos em grupo
7. (Pro)motor da mudança
Sintetizando… Em conclusão, consideramos serem estes os mandamentos que deverão enquadrar o nosso percurso pedagógico:
RECOMENDAÇÕES
(Excerto do Documento)
Consideramos que é urgente que o ME dê (ou continue a dar) prioridade ao domínio da língua portuguesa. Não temos a vaidade de pensar que se trata da disciplina mais importante, mas todos sabemos que é a que mais trabalha competências transversais, úteis a qualquer disciplina, úteis ao indivíduo para a sua formação enquanto cidadão de pleno direito, independentemente da vocação ou do percurso por que tenciona optar. A propósito da formação plena do indivíduo (para o que contribui, de sobremaneira, o desenvolvimento das competências comunicativas), deixamos uma forte chamada de atenção para a incoerência do sistema de avaliação: por um lado, a legislação preconiza a avaliação formativa, em todas as suas dimensões; por outro, aplicam-se provas em final de ciclo, que, quando não têm efeitos sobre a progressão dos alunos, servem para alertar as escolas para os aspectos em que, nesse caso concreto, o processo de ensino e aprendizagem está a falhar. O princípio é compreensível; a incoerência reside no facto de se testarem apenas parte dessas competências. E é óbvio que não se identificam as falhas das competências não testadas. Sabendo nós que os resultados dos exames de 12º ano determinam o processo de ensino e aprendizagem (como vimos neste estudo), surgem agora as provas aferidas na escolaridade básica que vão forçosamente privilegiar a escrita. Ora, não encontrámos nenhum documento da administração central que privilegiasse a escrita em detrimento da oralidade, antes pelo contrário, nas Competências Essencias do Português (DEB, 1999) elas surgem com igual peso. Outro assunto relaciona-se com os manuais, dado o peso significativo que assumem na prática dos professores. Acreditamos, assim, que deverá haver um controlo eficaz da sua qualidade por forma a garantir que, nos casos em que é o único instrumento de consulta, não se transmitam erros científicos nem incoerências com os programas. Resulta desta investigação que é fundamental haver terminologias linguística e literária comuns aos diversos níveis de escolaridade, isto é, que sejam apresentadas listagens de termos com a respectiva definição, que os professores possam usar em sala de aula. Caberá também ao ME orientar ou, no mínimo, autorizar algumas mudanças imprescindíveis ao sistema. Um professor de Português que queira desenvolver um trabalho sério e exaustivo (preparar debates, organizar materiais diversificados e actualizados, corrigir os textos que os alunos deverão escrever em quase todas as aulas, co-dinamizar actividades, etc.) não o consegue fazer com uma elevada quantidade de alunos. Por isso, sugerimos que cada turma, de qualquer nível, nunca ultrapasse os vinte e que se reduza o número de turmas por professor (sobretudo no 3º CEB e no ES). Um outro aspecto fundamental diz respeito à organização dos departamentos disciplinares. Para que haja uma maior qualidade e confiança no ensino e articulação entre os diferentes elementos que leccionam o mesmo nível, concordamos com a existência, nas escolas, de uma hierarquia tendo em consideração as competências científico-pedagógicas. Que este coordenador especialistaregule discursos, coordene práticas, promova a construção e partilha de materiais e estabeleça a continuidade entre os sucessivos anos, situação mais premente nos casos de maior mobilidade docente. Toda esta tarefa tem, obviamente, de implicar uma compatível redução da carga lectiva. Recordemos ainda que a questão da mobilidade foi diversas vezes apontada como causadora de insucesso escolar demasiado evidente no 1º CEB. Será, portanto, pertinente que se criem condições e incentivos à fixação de professores, em especial nas zonas mais periféricas.
As últimas recomendações dirigidas à administração central e regional são também endereçadas às escolas e territórios educativos que, dentro do quadro da autonomia, podem não estar a explorar ao máximo as suas potencialidades. É bom que lutem pela redução da dimensão das turmas, propondo, por exemplo, a divisão em turnos quando cada uma excede os vinte alunos, tal como acontece actualmente com as disciplinas de cariz mais prático como as técnicas laboratoriais. É desejável que, de entre o seu quadro docente, escolham para coordenador o professor reconhecidamente mais habilitado e que lhe exijam as funções que apontámos atrás, as quais, na realidade, deve desempenhar. A questão da articulação dos níveis de escolaridade também não pode ser esquecida. Cremos que os problemas identificados pela repetição de conteúdos e pela dificuldade de aplicação de um currículo em espiral (defendido por alguns professores) existem por não se considerar o ensino por ciclos. Em muitas escolas ainda não há uma prática de continuidade pedagógica, que parece apontar para resultados francamente positivos. A avaliar pela experiência do 1º CEB, também a articulação dos saberes parece vantajosa, pelo que será defensável, nos diferentes níveis, a medida (que começa a surgir no terreno, mormente no 2º CEB) de atribuição de mais do que uma disciplina da mesma turma a um professor. Às escolas caberá ainda equipar tanto as bibliotecas como as salas de aula, com recursos considerados imprescindíveis para um trabalho de produção reflectida por parte dos alunos. É fundamental que nas aulas de Português tenham acesso quer a obras de referência - dicionários, gramáticas, prontuários ortográficos… - quer a suportes tecnológicos - onde se incluem computadores com processadores de textos e outro software, com CD-ROM didácticos e outros, com acesso à Internet, etc., por forma a que as aulas se transformem em vivos laboratórios de língua. Este imperativo levanta duas questões: por um lado, na impossibilidade de munir todos os espaços com estes materiais, tem de haver um equilíbrio entre o número de salas a equipar e o número de horas/turmas que delas necessitam; por outro, é necessário encontrar formas de financiamento. Para tal, é possível concorrer a financiamentos próprios ou a concursos, é possível firmar protocolos com empresas do meio. Em suma, será fundamental dinamizar a escola para alcançar fins muito concretos. É dever da escola promover a divulgação da informação que vai produzindo e recebendo, qualquer que seja a sua origem, de modo a não quebrar a indispensável cadeia de comunicação. Importa lembrar que uma forma possível de manter o seu quadro profissional informado e actualizado poderá ser a disponibilização de jornais do dia e de alguns computadores ligados à Internet, em lugar acessível. Também se recomenda a divulgação, em dimensão legível, do regulamento interno e do projecto educativo da escola. Além disso, a formação pedagógica tanto dos auxiliares de acção educativa como do pessoal administrativo como ainda dos professores deverá consistir preocupação dos órgãos de chefia que, na impossibilidade de o concretizarem pelos seus próprios meios, deverão fazer diligências no sentido de as conseguir. A educação dos alunos acontece em todo o espaço escolar e não exclusivamente dentro da sala de aula.
Nesta medida, o papel da investigação é de extrema relevância. Compete às universidades e aos investigadores colaborar com o ME, com os centros de formação contínua, com os professores e todos os que deles necessitarem. Ao professor que lecciona, interessa ter conhecimento de perspectivas e teorias que se vão definindo, de experiências positivas que se vão realizando, de obstáculos que se podem evitar. O professor que lecciona nem sempre tem disponibilidade para se dedicar à pesquisa. Daí que caiba ao investigador cumprir esta função de recolher, tratar e divulgar a informação referente ao sistema escolar, para além do seu papel de formador. Os resultados do seu trabalho deverão ter como destinatários preferenciais tanto o professor como os técnicos da administração. Esta colaboração poderá ainda estreitar-se, concretizando-se na concepção de materiais pedagógicos (nomeadamente gramáticas e dicionários escolares, CD-ROM, programas de computador) que conciliem o trabalho de campo dos professores com o saber teórico dos investigadores. Concretizando estas necessidades, deixamos algumas questões que nos surgiram na sequência da reflexão dos resultados da presente investigação. Uma vez encontradas as práticas que os professores dizem levar a cabo, perguntamos: será que os alunos (em amostra representativa) corroboram o seu discurso? E será que os professores fazem mesmo aquilo que anunciaram, quer dizer, será que a perspectiva do investigador coincide com o olhar emotivo do professor? E os políticos e os técnicos da administração central, como encaram estes resultados? De que modo a predisposição, apetência e empenhamento do professor influenciam a aprendizagem do aluno? Que efeitos advêm de um processo organizado, de facto, por ciclos? Até que ponto a alteração das práticas pedagógicas é visível num espaço de dez ou quinze anos? Quais as dificuldades que os alunos que não têm a língua portuguesa como língua materna causam ao professor? Como são resolvidas? E, finalmente, uma questão que nos intriga: se os professores gostam de dar aulas e se os alunos gostam da escola, sobretudo do ambiente humano, o que é que não funciona? Porque há queixas de parte a parte? Serão falaciosas? Ou as pessoas inibem-se de dizer a verdade? Ou o espaço escola funciona como um mal menor da sociedade?
A formação de professores tem de ser uma formação de qualidade. Depois da fase de adaptação dos docentes à necessidade de acumulação de créditos, acreditamos que os centros e instituições de formação comecem a estar em condições de exigir e de controlar uma formação de qualidade, através de mecanismos de avaliação adequados e fidedignos. Por enquanto, os professores dividem-se entre os elogios e as queixas. Estão, porém, disponíveis para actualizar os seus conhecimentos e para receberem ajuda, em especial no que à prática diz respeito. Esta predisposição pode alimentar mais facilmente modalidades que começam a ganhar expressão como as oficinas de formação. De entre as necessidades expressas ou por nós sentidas, salientamos o trabalho na área do domínio dos suportes tecnológicos, da didáctica do Português com recurso a esses mesmos suportes, de maneiras diversificadas de implementação de estratégias, actividades e materiais, de formas progressivas de aplicação de um currículo, da avaliação considerada parte integrante do processo de ensino e aprendizagem, de modos de registo e tratamento da informação que se recolhe, da criação de hábitos de trabalho em grupo, etc. Em síntese, deve ser dada prioridade aos aspectos teóricos e práticos que resultam na aplicação das estratégias de um professor com o perfil delineado na segunda parte deste trabalho.
Sabemos que, se queremos ter cidadãos dignos, toda a sociedade tem de se implicar na sua formação. Daí que se considere fundamental a relação da escola com as empresas e autarquias. E que papel poderão desempenhar? Um apoio que se pode revelar a quatro níveis: 1) a prestação de serviços no âmbito dos meios de transportes, por exemplo, e o apoio material e de equipamento como computadores, dicionários e afins, facilmente dedutíveis nos impostos; 2) a (co-)dinamização de concursos e de jogos florais, que promovam a produção de textos criativos; 3) a formação inicial (muitas vezes em forma de estágio) de alunos que concluem cursos tecnológicos ou cursos especializados em determinadas áreas, mesmo ao nível da escolaridade básica; 4) a participação activa na definição dos currículos dos tais cursos especializados e na tomada de decisões ou na apresentação de opiniões de carácter pedagógico, razão pela qual têm assento na Assembleia de Escola. As editoras, para além de se incluirem nas empresas atrás assinaladas, têm, pela sua especificidade, obrigações acrescidas. Assim, uma recomendação particularmente importante relaciona-se com a qualidade dos manuais escolares: que invistam em autores e materiais apelativos, sem erros científicos nem pedagógicos, sem gralhas e de acordo com as directivas programáticas. Que controlem a sua qualidade. Para os mais novos, e como forma de atender à necessária fruição da leitura, sugerimos a simplificação de obras clássicas. Gostaríamos também que fosse encontrada uma fórmula, em conjunto com as escolas, para a oferta ou venda a preços simbólicos de livros de literatura que fariam parte da biblioteca ou das bibliotecas de turma.
Recomendamos, aos mais directamente interessados no sucesso, que dignifiquem o sistema educativo a que pertencem, reconhecendo-lhe o valor que tem; que se motivem e que motivem os seus educandos, o que será também uma forma de incentivarem os próprios professores. Os pais e encarregados de educação que se manifestam contra a escola e contra os professores não podem esperar que os seus educandos retirem dela o maior proveito. Recomendamos às famílias que acompanhem os educandos no cumprimento das tarefas escolares que lhes são distribuídas e que dialoguem com eles sobre a escola, de modo a inteirarem-se da situação e a não sofrerem inesperadas surpresas desagradáveis. O diálogo com o professor no 1º CEB ou com o director de turma nos restantes ciclos é também fundamental. De igual modo, cabe-lhes a denúncia fundamentada das ocorrências que se revelem incorrectas.
O professor tem, como vimos, uma tarefa complexa. Porém, a paixão e/ou o profissionalismo que o move deve ajudá-lo a ser exigente e rigoroso consigo e com os seus alunos. Consigo na forma empenhada, responsável e comprometida com que encara a profissão. Com os seus alunos porque, na realidade, eles gostam de aprender, sentem-se bem quando percebem que o professor acredita nas suas potencialidades. Além disso, tal como Pedro da Cunha diz (1996), deve assumir que um bom professor não aceita trabalhos mal feitos ou mal apresentados, confronta as crianças ou os jovens com as consequências das suas acções, compreende o aluno afectivamente carente, avalia as razões que o levam a ter determinada atitude, ou seja, o professor baseia a relação pedagógica no princípio do respeito mútuo. Mostram-nos os resultados que o professor de Português deve investir mais no desenvolvimento equilibrado das competências de comunicação, criando espaços para a produção efectiva dos alunos, ao nível da escrita e da oralidade, e para a recepção através, por exemplo, da audição e leitura de histórias, por vezes apenas como momento de fruição; na gestão pedagógica do ensino, explicitando técnicas de pesquisa, isto é, formas de recolha, tratamento e produção da informação; na diversificação das actividades, estratégias e suportes a que recorre, introduzindo com maior frequência, na sala de aula, os meios audiovisuais e tecnológicos mais avançados; na utilização de instrumentos que auxiliem no âmbito da avaliação formativa; na promoção do desenvolvimento do trabalho em grupo, quer entre alunos quer com colegas, etc. Em suma, e porque este assunto foi aqui sobejamente explorado, terminamos retomando o perfil desenhado na segunda parte deste documento, pois cada um avaliará o seu percurso, assumindo como suas as recomendações que considerar pertinentes para poder atingir plenamente cada um dos sete mandamentos do professor de Português do séc. XXI:
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