Centenário de Clarice Lispector

Publicado por a 10/12/2020 em Notícias | Comentários desligados

Street Art Clarice lispector na Vila Madalena by Jimmy C. e SliksStreet Art – Clarice Lispector na Vila Madalena, de Jimmy C. e Sliks

Clarisse Lispector nasceu há 100 anos (Chechelnyk, Ucrânia, 10 de dezembro 1920 – Rio de Janeiro, Brasil, 9 de dezembro de 1977).
Jornalista e escritora, o registo autobiográfico marcou a sua escrita sobre acontecimentos do dia a dia, coisas banais que lhe serviam para reflexões existenciais, numa linguagem intimista, explorando diferentes possibilidades narrativas.  Perto do Coração Selvagem foi o seu primeiro livro, publicado em 1943, que lhe trouxe desde logo o reconhecimento de ser uma voz de profunda renovação da literatura brasileira.

No prefácio ao livro de contos Laços de família (2013, Relógio D’Água) Lídia Jorge, que titula o seu texto Para Clarice Lispector, escreveu “Quem uma vez se deixou revestir do olhar que dimana da prosa de Clarice compreende como a escrita pode ser vida, muito mais do que ela, nunca parte dela.” (p.10). É possível atravessar  a vida de Laura, personagem  do conto ”Imitação da rosa”, por essa escrita de que fala Lídia Jorge:

“Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorriu ela satisfeita. Segurando o copo quase vazio, fechou os olhos com um suspiro de cansaço bom. Passara a ferro as camisas de Armando, fizera listas metódicas para o dia seguinte, calculara minuciosamente o que gastara de manhã na feira, não parara na verdade um instante sequer. Oh como era bom estar de novo cansada.

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir: só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.

E ela retornara enfim da perfeição do planeta Marte. Ela que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem, reencontrava grata sua parte diariamente falível. De olhos fechados suspirou reconhecida. Há quanto tempo não se cansava? Mas agora sentia-se todos os dias quase exausta e passara, por exemplo, as camisas de Armando, sempre gostara de passar a ferro e, sem modéstia, era uma passadeira de mão-cheia. E depois ficava exausta como uma recompensa. Não mais aquela falta alerta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente maravilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independência. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir ˗ nem de noite ˗ que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo.” (p.46)

Clarice Lispector soube brincar com a linguagem e recriá-la nas suas histórias infanto-juvenis, que deixam interrogações aos adultos. No conto Quase de verdade (2013, Relógio D’Água),  dialoga e joga com as crianças pela voz do protagonista, que, da fórmula mágica inicial “Era uma vez…” salta, num mergulho identitário e numa estranha sintaxe, para “Era uma vez: eu! [...] Sabe quem eu sou? Sou um cachorro chamado Ulisses e minha dona é Clarice.” E a história contada por Ulisses vem acrescentada de uma longa introdução bem latida para Clarice da sua viagem para o quintal de outra casa:

“Assim corria a vida. Mansa, mansa.
Os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam, a figueira figueirava, os ovos ovavam. E assim por diante.
A essa altura, você deve estar reclamando e perguntando: cadê a história?
Paciência, a história vai historijar. E é para agora mesmo.” (p.12)

E vale a pena ler até ao fim…