Parecer sobre a prova final de Português, 12.º ano, 2.ª fase, 19 de julho de 2018

Publicado por a 23/07/2018 em Pareceres, Pareceres sobre exames | Comentários desligados

A prova nacional de Português do 12.º ano (2.ª fase, 19 de julho de 2018) obedece aos programas em vigor; está de acordo com as informações-exame, privilegiando-se conteúdos comuns aos dois Programas de Português (o atual e o que vigorou até 2017, no 12.º ano).

Para além disso, a prova rege-se por um grau de dificuldade adequado ao ciclo de estudos em questão e os itens são formulados, quase sempre, com recurso a linguagem objetiva e ajustada. A prova está equilibrada, a gramática é adequada e a escolha múltipla do texto informativo, objetiva.

 

Esta prova apresenta estrutura e cotações idênticas à da 1.ª fase:

 

  • o Grupo I (Educação Literária – 104 pontos) integra sete itens de resposta restrita,  que têm como foco a ode “Prefiro rosas, meu amor, à pátria”, do heterónimo pessoano Ricardo Reis (itens 1, 2 e 3), um excerto do “Sermão de Santo António” , de Padre António Vieira (itens 4, 5 e 6)  e o tópico da “representação da cidade na poesia de Cesário Verde” (item 7);
  • o Grupo II (Leitura e Gramática – 56 pontos) é constituído por sete itens de seleção (escolha múltipla) e de construção (resposta curta);
  •  o Grupo III (Escrita – 40 pontos) é composto por um item de resposta extensa, em que se solicita aos alunos um texto de opinião sobre “o impacto do progresso técnico na qualidade de vida do ser humano, no futuro”.

É de referir, no que respeita o Grupo I (Parte A), que a formulação das questões 1., 2., 4. e 5. carece de objetividade, dado que nos critérios de classificação são exigidos dois tópicos, para que estas questões sejam avaliadas com a cotação máxima, em termos de conteúdo; contudo, as instruções não são claras relativamente a esta condição dos critérios de classificação, o que pode penalizar os alunos.

Relativamente ao Grupo II, o item 1 (“No primeiro parágrafo do texto, os autores evidenciam a ideia de que, nas sociedades atuais”) admite duas hipóteses de resposta, a (C) e a (D). A diferença entre as alternativas (C) e (D) depende de uma graduação problemática:

Alíneas Excertos textuais Percursos de interpretação possíveis
(C) os valores materiais se sobrepuseram aos valores espirituais. “a pouco e pouco, a banca, a bolsa, o arranha-céus de escritórios substituíram a catedral” (l. 5)
  • (C): Há aqui uma graduação que não garante um estado final de sobreposição, para além de se considerar a Catedral como valendo por tudo o que é espiritual.
  • (C) e (D): ambas remetem para ideia de que os conceitos de bem e de mal se estão a desvanecer. Estamos perante o desvanecer do bem e do mal contra o substituir a pouco e pouco da Catedral por bolsa e etc.
(D) os seres humanos perderam a noção do bem e do mal. “e muitos pensam,depois de Nietzsche, que os conceitos de bem e de mal se estão a desvanecer” (ll. 7-8)

Embora não se possa dizer que a opção correta não seja (C), colocar esta distinção trai o sentido global de um texto focado na ideia de que tanto interesses materiais se estão a sobrepor ao sagrado como a distinção entre bem e mal se está a desvanecer (ideia essa que será contestada no último parágrafo).

Em síntese, trata-se de uma prova construída em conformidade com os documentos curriculares vigentes e com um grau de dificuldade adequado ao final do Ensino Secundário, que carece, no entanto, de objetividade ao nível da formulação de algumas questões.

 

Lisboa, 20 de julho de 2018

A direção da APP