Lembro-me muito bem. Foi no monte.

(…)

Ia com as mãos atrás das costas, sorrindo amigavelmente às coisas, e só atentei na Patrícia quando, a bem dizer, esbarrámos. Esbarrámos, sim, e depois? Depois lá fiquei eu especado, de boca aberta e olhos arregalados, como tu ficarias se a visses.

Bom, descrever Patrícia é impossível; contudo, se descrever a beleza, a graciosidade, o sorriso de Patrícia é cometimento de todo impossível, posso, sem esforço, reproduzir as suas palavras.

 

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- Tu não és daqui, pois não?
Recobrei algum ânimo:
- Não. Sou de Braga e também estou a passar férias. Vim pelo monte com o meu avô, que está a dormir acolá em baixo com os cães à roda. Tu conheces o meu avô?
- Não - disse - Se calhar é caseiro do meu pai.
- Meu avô não é caseiro nenhum! - retorqui altivamente- Meu avô é caçador!
Patrícia denunciou a estranheza: -Caçador?!
Logo eu, com arreganho:
- Caçador, sim! Todos os coelhos o estimam!
Ela afigurou-se-me impressionada.
- Desculpa-me - gemeu, cabisbaixa- Não sabia. Desculpas, não desculpas?
Claro que desculpei.

- E até podemos ser amigos, não podemos ? - insistiu Patrícia, esperançada, na sua voz rouquita - Tu achas-me linda?
Fitei o tronco dum eucalipto, emocionado, com o coração a rufar.
- Qualquer sujeito que tenha olhos na cara... - ousei.
Patrícia baixou graciosamente um joelho:
- Não me interessam os outros, só me interessas tu. Achas-me linda?
Do tronco do eucalipto, o meu olhar subiu à folhagem, que tremeluzia ao sol:
-Eu... eu tenho olhos na cara!
Logo Patrícia, astutamente:
- Na tua terra deve haver muitas como eu... e até mais lindas, se calhar... E numa lamúria:
- Sabes, sou o patinho feio da família...
Da folhagem do eucalipto o meu olhar guindou-se às nuvens.
- Aquele patinho feio que depois virou cisne lindo - murmurei, orgulhoso da minha sabedoria. (Eu também era letrado, ficasse aquela sirigaita sabendo!)

- Portanto - tornou implacavelmente a voz rouquita de Patrícia - queres ser meu namorado, não é?

- Sim, eu gostava... Era bem bom, isso era... Mas olha que fazes mau negócio! (Eu sou assim: franco, leal; gosto de lisura nos negócios.)

Patrícia riu.
- Anda - disse, acercando-se dois curtos passos. - Podes beijar-me, se quiseres.
Emocionadíssimo, (…) estiquei o pescoço, as mãos atrás das costas, e catrapus, beijei chilreadamente a face macia de Patrícia. Depois trocámos um sorriso húmido e, lado a lado - eu de peito saído, ela em risadinhas - lá fomos pelo monte fora a conversar sobre "O Feiticeiro de Oz".

 Altino do Tojal, Os Putos
música do filme «O Feiticeiro de Oz»
fotografia: Penhas Douradas (Serra da Estrela)