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APETECE-ME
FALAR DE TORRADAS. Não sei porquê,
talvez porque a luz é diferente, as folhas caem das árvores e a vinha
virgem arde como fogo nos muros e nos telhados das casas que ficam para
lá das janelas.
Se calhar porque torradas me lembram lareira e lareira fins-de-semana sentada quase dentro dela ou deitada num sofá com uma manta por cima e o nariz e os olhos de fora, para ler um livro.
E, no meio da emoção, num momento em que os nossos pensamentos e os do livro se misturam explosivamente, não aguentando mais, uma de nós vai dizer: "Apetece-me uma torrada". Entre trincadelas vamos conhecer Mc Gonagall, discutir e tomar partidos, por Dumbledore; que nos fascina e comove, por Harry, por Hermione ou por Hagrid, antecipando, com um misto de terror e arrepios na espinha (dos bons), o que vai acontecer a seguir.Quando cheirar a torradas, já vai ser fim de Outubro e vamos ver o filme do Harry Potter, que por essa altura estará nos cinemas. Já andamos a pensar nisso há muito tempo e é bom ter qualquer coisa que se espera em conjunto com outra pessoa. Queremos e não queremos ir vê-lo, temos medo que as personagens não correspondam aos "verdadeiros" heróis e monstros, que povoam com uma espessura de carne e osso a nossa imaginação.Nem gostamos das capas dos livros, porque aquele Harry não é o nosso, quanto mais... Pensando bem, o meu só é o dela, porque felizmente as palavras são imperfeitas e permitem que, na descrição que ela faz do que imagina, caiba a minha imaginação e vice-versa. E é por isso que podemos falar infinitamente do mesmo, sem beliscar o mundo que cada uma de nós, a este propósito, construiu interiormente.Queremos e não queremos, mas sabemos à partida que não vamos resistir a ir ver, só ver, para provavelmente, e desejamo-lo ardentemente, descobrir que o realizador é uma alma gémea e tem o privilégio - como nós temos -de conhecer os genuínos., Sim, acho que quando nos apetecer torradas, vamos ao cinema. As torradas são, de facto, muito importantes. As das pastelarias, em pão de forma, são especiais. Cortadas em "palitos" finos, com muita manteiga. A do meio é a melhor, para quem não gosta de côdeas. Tenho uma amiga que diz que dar a fatia do meio da torrada a outra pessoa é a maior prova de amizade. E eu acredito e até acho que em vez de rosas se deviam embrulhar fatias do meio da torrada e dá-Ias a quem quiséssemos aquecer o coração. Eu sei a quem é que dava uma agora. As torradas são intelectuais, o que é que julgam? Simbolizam, por exemplo, melhor do que muita coisa, o que é a educação. Colocadas num pequeno espaço entre duas grelhas que deitam calor, um lado pode ficar mais torrado do que o outro, como uma filha se pode parecer mais com a mãe do que com o pai, ou vice-versa. O segredo de fazer torradas é o tempo e a intensidade a que o pão é sujeito a essas influências. As pessoas hábeis fazem saltar a torrada a tempo, as outras esquecem-se, e deixam-na sufocar em fumo, desfazendo-se em pedaços de carvão. Essas torradas morreram antes de cumprir a sua função. Não gosto de torradas queimadas. Só das outras.
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